Em seu discurso na ONU, Trump jogou Bolsonaro na lata de lixo e sinalizou a interlocutores que quer tratar de interesses de Estado com Lula diante de um cenário em que os EUA estão cada dia mais isolados. Entenda
Em seu afago a Lula durante o discurso na Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (23), Donald Trump sinalizou algo que há meses vem sendo construindo nos bastidores do tarifaço.
Ao falar da “química excelente” que teve com Lula no breve “abraço” nos bastidores da reunião de cúpula das Nações Unidas e anunciar um encontro nos próximos dias, Trump demonstrou que ouviu interlocutores que dizem que há no Brasil razões muito mais importantes do que a pauta ideológica levada à Casa Branca por Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
À frente das tratativas com o setor empresarial brasileiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) vem acompanhando de perto o trabalho de interlocutores contratados pela iniciativa privada do país junto ao governo Trump.
Esses interlocutores colocaram um ponto inegociável na pauta: a libertação de Jair Bolsonaro (PL). Na carta, enviada em julho ao governo Lula, Trump anunciou a taxação de 50% de produtos brasileiros e colocou como condição que o processo contra o ex-presidente “deve terminar imediatamente”.
Depois disso, Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão e levará com ele para a cadeia o chamado “núcleo crucial” da organização criminosa que tentou um golpe de Estado no Brasil.
O recado a Trump foi claro e confirmado pelos interlocutores na Casa Branca: não haverá anistia a Bolsonaro.
Discurso na ONU
Em seu discurso na assembleia geral da ONU, Trump mostrou que entendeu o recado. E que sabe que o que está em jogo na relação ao Brasil vai muito além da pauta ideológica que só beneficia o clã Bolsonaro.
Trump sabe que há setores da direita brasileira que defendem os interesses dos EUA no Brasil bem melhor e de forma mais discreta que o clã Bolsonaro. E que há um cenário mundial onde o Brasil é estratégico.
Ao falar da química com Lula e abrir as portas para a negociação, Trump ignorou totalmente a pauta em torno de Jair Bolsonaro, anunciada como condição para levantar o tarifaço contra o Brasil.
Ao dizer que “o Brasil agora tem tarifas imensas em resposta aos seus esforços para interferir nos direitos e cidadãos americanos e outros com censura, repressão” e “de usar o sistema judicial como arma”, Trump não se referia ao clã Bolsonaro, mas às ações contra as big techs – essenciais para que os EUA tente manter a hegemonia diante de um cenário mundial em que ele está cada dia mais isolado.
Em seguida, Trump abandona o teleprompter – que falhou logo no começo – e fala de improviso sobre o abraço em Lula e a promessa do encontro na próxima semana.
“Ele parece um homem muito agradável, e eu gosto dele, e ele gosta de mim. E eu gosto de fazer negócios com pessoas que eu gosto. Tivemos ali esses 30 segundos. Foi uma coisa muito rápida, química excelente. Isso foi um bom sinal”, emendou no improviso, ressaltando que “também, como presidente, eu defendo a soberania”. Uma alusão à defesa da soberania por Lula.
Para os interlocutores, a mensagem de Trump foi clara: há algo muito mais importante na relação entre EUA e Brasil do que a anistia a Bolsonaro – que foi jogado no lixo pelo presidente dos EUA no púlpito da assembleia geral das Nações Unidas.
Interesses reais
A declaração se deu em um contexto quem os EUA está cada dia mais isolado no cenário mundial. A questão palestina é um dos maiores exemplos disso. Desde segunda-feira (22), apenas EUA não reconhece o Estado Palestino entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU – uma pauta que foi construída com muito empenho do presidente Lula.
Trump já teria sido alertado pelos interlocutores que um distanciamento do Brasil neste momento afetaria ainda mais a tentativa de os EUA se manterem hegemônicos.
E ai entra também a questão tecnológica e a transição energética. Apesar do negacionismo climático e do lobby escancarado para as petrolíferas transnacionais – “Drill, baby, drill!”, lembrou Trump na ONU de seu slogan de campanha: “perfure, baby, perfure” -, o presidente dos EUA vê a ascensão das grandes montadoras de carros elétricos da China.
Para reativar o pólo automobilístico de Detroit, por exemplo, Trump precisa da tecnologia dos carros elétricos, que dependem das chamadas terras raras, grupo de minerais essenciais para a produção das baterias e condutores.
E é aí que Lula mostra a carta na manga. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China.
Segundo dados da U.S. Geological Survey (USGS), o Brasil detém cerca de 23% das reservas globais de terras raras, o que equivale a 21 milhões de toneladas. A China lidera com 49% das reservas.
Nesse cenário controverso, em que quase 3/4 dos minérios essenciais para a nova ordem mundial estão nas mãos de China e Brasil, Trump entende que há uma questão muito superior em jogo.
Nos próximos dias, o Itamaraty entra em cena e deve negociar os termos da reunião entre Lula e Trump. Na pauta, o governo brasileiro vai insistir em uma negociação de interesses entre dois Estados soberanos. E, para isso, Trump largou a mão de Bolsonaro, que já havia sido abandonado pela direita fisiológica do Brasil.
Fonte: Revista Forum





