A história do município de Novo Horizonte do Sul, no Mato Grosso do Sul, não está escrita apenas em documentos oficiais. Ela vive na memória daqueles que enfrentaram a fome, a incerteza e as dificuldades da vida no campo para conquistar um pedaço de terra.
É com esse olhar que o Portal de notícias KF News apresenta a série documental “Muitas Vozes, Uma Só História”, reunindo relatos de pioneiros que ajudaram a construir o município. Entre eles estão os brasiguaios Pedro Felipe da Silva e sua esposa Maria Odete Pereira da Silva, cujas trajetórias se confundem com a própria formação da comunidade.
Esta não é apenas a história de um casal.
É a história de centenas de famílias que cruzaram fronteiras, enfrentaram barracos de lona, matas fechadas e anos de trabalho duro em busca de dignidade.
Pedro Felipe da Silva nasceu em 29 de junho de 1956, e Maria Odete Pereira da Silva em 21 de junho de 1958. Ambos são naturais do estado do Paraná, de famílias grandes e humildes.
Pedro veio de uma família com doze irmãos, sete ainda vivos. Maria Odete nasceu em uma família de dez irmãos, dos quais cinco permanecem vivos.
O casal construiu sua própria família com quatro filhos:
- Elaine Cristina da Silva
- Leandro Felipe da Silva
- Luciano Aparecido da Silva
- Aline Tatiana Felipe da Silva

Com pouca oportunidade de estudo, ambos estudaram apenas até o quarto ano do ensino fundamental, realidade comum para muitas famílias rurais da época.
Após se conhecerem e se casarem ainda no Brasil, Pedro e Maria Odete acompanharam a família para o Paraguai. O pai de Pedro havia vendido o sítio na região de fronteira e adquirido uma propriedade do outro lado da divisa.
O casal passou cinco anos vivendo no Paraguai, em uma área rural próxima à fronteira.
Foi lá que nasceram dois de seus filhos.
Pedro recorda que, apesar das dificuldades, conseguiu se adaptar bem. Jogava futebol com moradores locais e criou amizades com paraguaios da região.
Maria Odete, porém, teve uma experiência diferente.
Segundo ela, a distância da cidade, a dificuldade de comunicação e a falta de infraestrutura tornavam a vida muito difícil.
Para ir até a cidade mais próxima era preciso viajar cerca de 20 quilômetros de charrete ou cavalo.
Mesmo assim, aquele período acabaria marcando o início de uma nova etapa em suas vidas.
Em uma das viagens que faziam para comprar mantimentos em Mundo Novo (MS), o casal viu algo que despertou curiosidade: um grande acampamento de famílias em barracos de lona.
Ali estavam centenas de trabalhadores rurais esperando a distribuição de terras pelo governo.
Mulheres cozinhavam no chão, lavavam roupas em bacias improvisadas, e famílias inteiras viviam em barracos simples.
Foi Maria Odete quem teve a primeira reação:
Ela sugeriu ao marido que fossem morar ali também, na esperança de conseguir um pedaço de terra.
Pedro inicialmente recusou a ideia.
Muitos diziam que aquilo era apenas sofrimento e que ninguém ganharia terra alguma.
Mas a insistência dela acabou convencendo o marido.
Pedro chegou primeiro ao acampamento junto com o irmão e alguns colegas.
Eles construíram um grande barraco coletivo, onde quatro homens passaram a viver enquanto aguardavam a chance de trazer suas famílias.
No local viviam mais de 700 famílias.

Apesar das dificuldades, Pedro lembra que o ambiente era de união.
Cada família tinha seu barraco, mas todos conviviam juntos, organizados em grupos. Havia regras básicas para manter a ordem, como evitar brigas e excessos de bebida.
O governo fornecia ocasionalmente cestas de alimentos, o que ajudava a manter as famílias enquanto aguardavam a definição das terras.
Quando finalmente surgiu a notícia da distribuição das terras, as famílias foram transferidas para uma região então chamada Santa Idalina ou Someco, que depois se tornaria parte de Novo Horizonte do Sul.
A mudança foi difícil.
Havia poucos caminhões para transportar tantas pessoas.
As famílias foram divididas em grupos e levadas em etapas.
Alguns chegaram ainda em 1985.
Pedro e Maria Odete chegaram em janeiro de 1986, entre os últimos grupos.
Ao chegar, encontraram apenas mata fechada.
Não havia energia, estrada, água encanada ou qualquer infraestrutura.
O lote sorteado para o casal foi o número 68.
Quando Pedro visitou a terra pela primeira vez, ficou profundamente desanimado.
A área parecia improdutiva, cheia de cerrado e vegetação difícil.
Ele chegou a pensar em desistir e voltar para o Paraguai.
Mas um amigo aconselhou:
“Anda o lote inteiro antes de decidir.”
Pedro seguiu o conselho.
Ao subir mais para dentro da propriedade, descobriu que a terra melhorava.
Ali havia solo fértil.
Foi naquele momento que decidiu ficar.
O primeiro passo foi abrir um espaço na mata.
Pedro roçou a vegetação e queimou o terreno para construir o primeiro barraco.
O abrigo foi feito com troncos e folhas de coqueiro, materiais disponíveis na região.
Depois cavou um poço para conseguir água.
O telhado só melhorou quando receberam algumas telhas de eternit, que ajudaram a tornar o barraco mais resistente.
Enquanto Pedro trabalhava fora — em fazendas ou usinas — para conseguir algum dinheiro, Maria Odete ficava no lote cuidando dos filhos e da pequena produção.

Ela plantava mandioca e outros alimentos para garantir comida à família.
Também ajudava no trabalho pesado.
Quando Pedro roçava a área maior, ela derrubava árvores menores para adiantar o serviço.
Foi assim que, pouco a pouco, o casal foi abrindo a terra.
Um dos episódios mais marcantes da vida da família aconteceu no nascimento do filho Luciano.
Naquele dia, Maria Odete entrou em trabalho de parto dentro do barraco.
Uma parteira havia sido chamada para ajudar.
Mas durante o parto um forte temporal atingiu a região.
A chuva e o vento começaram a derrubar as paredes de barro do barraco.
Desesperado, Pedro saiu correndo e trouxe uma lona para proteger a esposa.
Enquanto a tempestade destruía parte da casa, o bebê nasceu.
Quando a chuva passou, mãe e filho estavam bem.
A lama tomava conta do barraco — mas a família havia vencido mais um desafio.
Nos primeiros anos havia muitos animais selvagens na região.
Maria Odete lembra que frequentemente via rastros de onça perto de onde deixava os filhos enquanto trabalhava na roça.
Mesmo com medo, ela continuava trabalhando.
Era a única maneira de construir o futuro da família.
Nos primeiros anos quase não havia ajuda.
Pedro alternava períodos de trabalho fora com o esforço de abrir o lote.
Ele trabalhava 15 dias em fazendas ou usinas e voltava para continuar desmatando e preparando a terra.
Aos poucos vieram as primeiras plantações.
Primeiro mandioca.
Depois outras culturas.
Com o tempo a vida foi melhorando.

Apesar das dificuldades, havia momentos de alegria.
A diversão das famílias acontecia principalmente nos finais de semana.
Aos sábados, as comunidades organizavam bailes, onde as famílias se reuniam para dançar, conversar e celebrar.
Já aos domingos, era dia de futebol.
Times das comunidades se enfrentavam e as partidas reuniam muitas pessoas. Famílias inteiras iam assistir aos jogos, levando comida, conversando e passando o dia juntas.
Para muitos moradores, esses momentos eram essenciais para fortalecer a união da comunidade.
E Pedro, apaixonado por futebol, sempre fazia questão de participar.
Hoje, mais de quatro décadas se passaram desde que Pedro e Maria Odete chegaram à região.
A mata virou lavoura.
O barraco virou casa.
Os filhos cresceram, formaram suas próprias famílias e os netos nasceram ali.
Quando perguntados se fariam tudo novamente, as respostas são sinceras.
Pedro diz que talvez não repetisse todo o sofrimento.
Mas Maria Odete vê a história de outra forma.
Ela diz que gosta de lembrar do passado — porque sabe que hoje a vida é melhor.
E quando falam em mudar para a cidade, ela responde com convicção:
“Daqui eu só saio para o cemitério.”
A trajetória de Pedro Felipe da Silva e Maria Odete Pereira da Silva é apenas uma entre tantas.
Mas ela representa o caminho de centenas de famílias brasiguaias que atravessaram fronteiras, enfrentaram dificuldades e ajudaram a construir comunidades inteiras.

Suas histórias são a base viva da memória de Novo Horizonte do Sul.
E é por meio dessas vozes que a verdadeira história da região continua sendo contada.
A história de Pedro Felipe da Silva e Maria Odete não é apenas a história de um casal.
Ela representa centenas de famílias.
Famílias que vieram do Paraná, do Paraguai, de tantas outras regiões.
Famílias que enfrentaram o desconhecido.
Famílias que transformaram um pedaço de cerrado em comunidade.
E é por isso que este documentário se chama:
“Muitas Vozes, Uma Só História.”
Porque quando essas vozes se juntam…
Elas contam a verdadeira origem de Novo Horizonte do Sul.
A história de Pedro Felipe da Silva e Maria Odete Pereira da Silva representa a trajetória de centenas de brasiguaios que enfrentaram fronteiras, dificuldades e incertezas em busca de dignidade.
Com trabalho, fé e união, essas famílias ajudaram a construir o que hoje é Novo Horizonte do Sul.
E é por meio dessas vozes que a verdadeira história de um povo continua viva.
Porque um município não se constrói apenas com prédios ou estradas.
Ele se constrói com pessoas.

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