Data e Hora:
02 abril 2026, 23:00 PM

“Muitas Vozes, Uma Só História” – A história de Deoclécio Gubert e Cleonice Fátima Gubert

Cleonice e Deoclecio

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DOCUMENTÁRIO

BRASIGUAIOS – RAÍZES DE LUTA

O sol ainda não havia nascido quando os caminhões começaram a se movimentar na escuridão da estrada de terra. A madrugada era fria, silenciosa, e carregava consigo algo maior que a própria noite: esperança.

Nas carrocerias de madeira, espremidos entre sacos, ferramentas e poucos pertences, estavam centenas de homens trabalhadores rurais, pais de família e agricultores que haviam atravessado fronteiras em busca de dignidade. Entre eles estava Deoclécio Gubert e Cleonice Fátima Gubert

Aquele momento marcaria não apenas a vida deles, mas também a história de toda uma região que ainda estava por nascer.

Décadas depois, sentado na varanda simples de sua propriedade, ele e ela relembram cada detalhe daquele tempo.

“Meu nome é Deoclécio Gubert.”

Ao lado dele, está sua esposa, companheira de todas as jornadas e dificuldades.

“Meu nome é Cleonice Fátima Gubert.”

A história dos dois se mistura com a história de milhares de famílias que ficaram conhecidas por um nome que carrega luta, sofrimento e resistência: Brasiguaios.

Homens e mulheres brasileiros que migraram para o Paraguai em busca de trabalho, mas que, anos depois, retornaram ao Brasil para lutar pelo direito à terra. Foi assim que começou uma das trajetórias mais marcantes da colonização agrícola do sul do Mato Grosso do Sul.

Deoclécio Gubert nasceu no dia 19 de abril de 1957, no estado de Santa Catarina.

“Nós éramos em cinco irmãos e quatro irmãs.”

Já Cleonice Fátima Gubert nasceu no Paraná, na cidade de Pérola do Oeste, em 17 de fevereiro de 1965. Sua família era ainda maior.

— “Nós somos em doze irmãos. Hoje sete estão vivos.”

Crescer em uma família numerosa significava aprender desde cedo a dividir tudo: comida, espaço, roupas e sonhos. Mas também significava crescer em comunidade, cercado de gente. Foi nesse universo rural, simples e cheio de desafios, que os dois cresceram. Ainda não sabiam, mas o destino deles seria marcado por migrações, acampamentos, conflitos por terra e pela construção de uma nova cidade.

Deoclécio lembra que sua família havia passado primeiro pelo Rio Grande do Sul, depois pelo Paraná, antes de seguir rumo à fronteira.

— “Nós viemos do Rio Grande do Sul para o Paraná. Depois meu pai pegou terra ali perto da divisa.”

Naquele tempo, os sistemas de colonização ainda estavam sendo organizados: Muitas terras eram ocupadas informalmente, nem sempre havia títulos, nem sempre havia segurança., mas havia esperança.

Foi nesse período que Deoclécio e Cleonice se conheceram, eles eram jovens e casaram cedo, como era comum no interior.

— “Eu tinha 22 anos.”

— “Eu tinha 15.”

Logo depois do casamento, tomaram uma decisão que mudaria suas vidas: Foram morar no Paraguai.

A vida no Paraguai não era fácil. Os brasileiros que se estabeleciam ali eram chamados de imigrantes, viviam em terras que pertenciam a fazendas paraguaias e geralmente trabalhavam em regime de contrato ou arrendamento. Não eram donos da terra e precisavam pagar pela produção.

— “Lá nós trabalhávamos na roça. Soja, feijão, milho.”

O trabalho começava antes do amanhecer, a jornada era longa e a terra precisava ser preparada, plantada e cuidada com ferramentas simples. Tratores eram raros, quase tudo era feito manualmente. Além do trabalho pesado, havia outra dificuldade: A situação legal.

— “A gente tinha o permission da imigração para andar lá dentro.”

Isso significava que os brasileiros precisavam de autorização para permanecer no país, viviam sempre com insegurança. Mesmo assim, a vida seguia, durante os quase quatro anos em que viveram no Paraguai, o casal começou a formar sua família. Foi lá que nasceram suas duas primeiras filhas: Nilce  nascida em 1981 e Neide nascida em 1982

A vida era simples e sofrida mas havia momentos de alegria. Cleonice lembra que, apesar das dificuldades, havia convivência comunitária:

— “No fim de semana a gente se divertia. Tinha jogo de bola, festa.”

A casa onde moravam era simples, coberta com tabuinha de madeira.

— “Era fechado de tábua serrada.”

Nada de luxo mas era um lar.

Mesmo assim, no fundo do coração, muitos brasileiros que viviam no Paraguai sonhavam com uma coisa: voltar para o Brasil. Mas voltar não significava simplesmente retornar, era preciso ter para onde ir, era preciso ter terra. E foi então que começou a surgir uma notícia que mudaria tudo. Alguns líderes ligados à organização rural começaram a espalhar uma informação entre os brasileiros que viviam no Paraguai: havia terras no Brasil. Terras que poderiam ser ocupadas e  que poderiam se transformar em assentamentos.

A notícia circulava em reuniões organizadas por movimentos ligados à Pastoral da Terra. Ali começava a nascer um movimento: famílias inteiras começaram a discutir a possibilidade de retornar ao Brasil, mas não seria uma volta simples, seria uma luta,uma ocupação,uma disputa.

Deoclécio lembra claramente quando decidiu participar da primeira tentativa.

— “Nós viemos em caminhões.”

Não eram poucos, eram centenas de homens.

— “Deu mais ou menos uns seiscentos homens.”

Cada caminhão carregava cerca de 60 trabalhadores, todos dispostos a ocupar uma área de terra, um detalhe importante, naquela primeira viagem, as famílias ficaram no Paraguai, vieram apenas os homens.

— “A família ficou lá. Só veio nós.”

Eles sabiam que a situação poderia ser perigosa: conflitos com fazendeiros e possível intervenção da polícia, era uma jornada incerta, mas a esperança falava mais alto.

E assim, em uma noite silenciosa, a caravana partiu, a viagem aconteceu durante a noite. Os caminhões avançavam pelas estradas de terra do Mato Grosso do Sul, sem iluminação, sem garantia de sucesso, sem saber exatamente o que encontrariam. Chegaram perto da meia-noite, do outro lado da porteira da fazenda havia um casamento acontecendo, a música ecoava na escuridão. Enquanto isso, do lado de fora, centenas de trabalhadores aguardavam para entrar. Alguns líderes se aproximaram da porteira para negociar, entre eles estava Deoclécio, mas os responsáveis pela fazenda não queriam abrir. A tensão aumentava, mais caminhões chegavam, mais homens desciam e a multidão crescia. Foi então que finalmente abriram a porteira, mas quando ela se abriu, a situação já havia mudado,  a polícia havia chegado, mas mesmo assim a multidão avançou

— “Entrou todo mundo que nem uma boiada.”

As mulheres que estavam presentes enfrentaram os policiais, empurraram os canos das armas, a polícia era minoria e não conseguiu impedir a entrada. A ocupação havia começado. A madrugada avançava lentamente quando os primeiros passos foram dados dentro da fazenda ocupada. A terra estava completamente coberta por mata, não havia estradas, não havia casas, não havia clareiras, apenas árvores, vegetação fechada e o silêncio da madrugada sendo quebrado pelos passos de centenas de homens que carregavam consigo ferramentas simples: machados, facões, enxadas e esperança.

Ali começava uma nova tentativa de vida, mas também começava um confronto inevitável. Assim que conseguiram entrar na área, os trabalhadores seguiram avançando mata adentro, para chegar ao outro lado da propriedade, era necessário atravessar um rio e não havia ponte, não havia passagem e a solução foi improvisar: Um cabo de aço foi estendido para permitir que os homens atravessassem durante a noite.

— “Nós atravessamos o rio com um cabo de aço”, lembra Deoclécio.

O trabalho era feito no escuro e quando a última pessoa atravessou, o dia já começava a clarear. Era o início de uma ocupação que duraria pouco tempo, mas que deixaria marcas profundas. Assim que chegaram ao interior da área, os trabalhadores começaram a organizar um acampamento improvisado, pois não havia qualquer estrutura.

— “Não tinha nada. Só mato.”

A mata precisava ser derrubada para abrir espaço e alguns grupos começaram a cortar árvores, outros montavam barracos improvisados. Havia apenas um pequeno barraco antigo na área, provavelmente utilizado anteriormente por trabalhadores da fazenda, mas para centenas de homens aquilo não era suficiente, era preciso improvisar.

Em poucos dias começaram a surgir pequenos abrigos feitos com madeira e lona. Era uma luta contra o tempo, todos sabiam que a reação dos proprietários da terra viria,  e ela veio,  durante quinze dias os trabalhadores permaneceram no local. Quinze dias de tensão constante, de esperança. Quinze dias de trabalho duro abrindo clareiras na mata e a disputa pela terra já estava nas mãos da justiça.

O DESPEJO

A decisão judicial chegou rapidamente, uma liminar autorizava o despejo da área ocupada e a polícia voltou, desta vez em maior número, não havia mais como resistir.

Depois de apenas quinze dias dentro da fazenda, os trabalhadores foram retirados do local, era o primeiro grande golpe naquela luta, e não seria o último. As famílias e trabalhadores foram levados para outro local, um pequeno povoado chamado Vila São Pedro. Ali começaria uma nova fase da história na Vila São Pedro, centenas de famílias começaram a montar um novo acampamento, e  agora não eram apenas homens,  as famílias começaram a se reunir novamente, barracos improvisados começaram a surgir, lonas pretas estendidas sobre estruturas de madeira. Era a paisagem típica dos acampamentos de trabalhadores rurais da época.

— “Ficamos quase um ano lá.”

Durante aquele período, cerca de oitocentas famílias passaram a viver em condições extremamente precárias. A sobrevivência dependia de solidariedade…e ela veio a Igreja Católica, através de líderes religiosos da região, começou a ajudar os acampados.

— “O bispo tratou de nós por seis meses.”

A igreja fornecia alimentos, apoio e orientação. Sem essa ajuda, a situação teria sido ainda mais difícil. A comida era simples: arroz e feijão e alguma farinha. Quando havia doações, chegavam também outros alimentos e os próprios agricultores de outras regiões começaram a contribuir, e assim o acampamento resistia.

Enquanto o processo judicial seguia, surgiu uma nova proposta: as famílias poderiam ser transferidas para outra área, o destino seria uma região próxima de Aquidauana e a esperança renasceu, talvez ali finalmente surgisse a oportunidade de conquistar a terra. As famílias viajaram até o local, mas ao chegar, perceberam que havia um problema grave, a terra não era boa, era fraca e difícil de produzir.

— “A terra não prestava.”

Cada família receberia apenas dois alqueires e para agricultores que dependiam da produção para sobreviver, aquilo era insuficiente. Depois de apenas dez dias, a decisão foi tomada: eles voltariam. E muitos acabaram retornando ao Paraguai, era mais um capítulo de frustração.

O RETORNO AO PARAGUAI

Depois de toda a luta, depois da ocupação, do despejo e da tentativa frustrada em Aquidauana, muitas famílias decidiram voltar temporariamente ao Paraguai e entre elas estavam Deoclécio e Cleonice. A família voltou para o mesmo local onde viviam antes, voltaram a plantar, a trabalhar. Mas agora havia algo diferente, eles sabiam que no Brasil havia uma luta acontecendo, que havia pessoas organizando novos acampamentos, e que aquela batalha pela terra ainda não havia terminado.

Enquanto isso, os líderes do movimento continuavam articulando novas estratégias, entre eles estava uma figura que Deoclécio lembra bem o deputado Sergio Cruz acompanhava a situação dos trabalhadores.

— “Ele estava junto com nós.”

Segundo os relatos, o deputado defendia os agricultores e denunciava a violência contra eles. Durante um dos conflitos com a polícia, chegou a afirmar que ali não havia criminosos, havia trabalhadores, homens que lutavam apenas por um pedaço de terra para viver.

A tensão entre fazendeiros, trabalhadores e autoridades continuava crescendo e  a história ainda estava longe de terminar.

Enquanto Deoclécio e sua família estavam novamente no Paraguai, uma nova notícia começou a circular entre os trabalhadores: havia um novo acampamento sendo organizado, desta vez na cidade de Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. A proposta era reunir novamente as famílias que haviam participado das ocupações anteriores, era uma nova tentativa, um novo começo e dessa vez não seriam apenas algumas dezenas de pessoas,  seriam centenas de famílias.

Quase mil famílias começaram a se reunir vindas do Paraguai e de outras regiões do Brasil, todas movidas pelo mesmo sonho: terra, trabalho e dignidade.

Cleonice lembra bem daquele momento.

— “Nós fomos para Mundo Novo também. Debaixo da lona.”

O casal levou as duas filhas pequenas: Nilce e Neide, que ainda eram crianças, uma tinha cinco anos e a outra quatro.

Ali começaria uma das fases mais difíceis de suas vidas, mas também uma das mais importantes, porque foi naquele acampamento, na cidade de Mundo Novo, que nasceu o movimento que daria origem aos assentamentos da região, e que, anos depois, ajudaria a formar o município de Novo Horizonte do Sul.

O ACAMPAMENTO DE MUNDO NOVO

— “Foi quase mil famílias”, recorda Deoclécio.

O local escolhido para o acampamento ficava próximo à área urbana da cidade, em um espaço improvisado onde os trabalhadores montaram seus barracos. Era uma paisagem que se repetiria muitas vezes na história da luta pela terra no Brasil, filas e mais filas de barracos feitos com madeira e lona preta, chão de terra batida, fogões improvisados com pedras, crianças correndo entre as barracas e adultos reunidos em rodas de conversa tentando imaginar o futuro. Foi ali que Deoclécio e Cleonice voltaram a se reunir como família, agora não eram apenas dois jovens agricultores, eles já eram pais com duas meninas pequenas – Nilce e Neide – e, mais uma vez, começariam do zero, viver em um acampamento não era fácil.

Os barracos eram simples, estruturas feitas de madeira cobertas com lona preta, quando chovia, a água escorria pelas laterais e muitas vezes entrava no interior das barracas. Quando fazia calor, o ambiente se tornava abafado e quando vinha o frio, a lona não segurava o vento. Era uma vida de resistência.

— “Nós ficamos um ano acampados ali.”

Durante aquele período, as famílias precisaram encontrar formas de sobreviver. Alguns homens saíam diariamente para trabalhar em fazendas da região, outros conseguiam serviços temporários na cidade era trabalho pesado, corte de cana, colheita e serviços agrícolas, qualquer atividade que garantisse algum dinheiro ou alimento para a família.

Ao mesmo tempo, o acampamento recebia ajuda, o governo começou a enviar cestas básicas e a Igreja Católica também prestava apoio, levando alimentos e assistência às famílias, o que não era suficiente para sustentar quase mil famílias por muito tempo, era necessário se organizar e foi exatamente isso que os trabalhadores fizeram.

Dentro do acampamento começaram a surgir lideranças, homens e mulheres que assumiam a responsabilidade de representar as famílias nas negociações com o governo. Essas lideranças organizavam reuniões frequentes e era nelas que chegavam as notícias, informações sobre processos judiciais, negociações com autoridades e possíveis áreas de assentamento.

— “A gente não tinha contato direto com o governo”, explica Deoclécio.

A comunicação acontecia através das lideranças, eram elas que viajavam e conversavam com autoridades e depois voltavam para informar o restante do acampamento. A cada nova reunião, centenas de pessoas se juntavam para ouvir as notícias, algumas traziam esperança e outras geravam preocupação. mas uma coisa era certa: a luta continuava.

UMA GRAVIDEZ NO MEIO DA LUTA

Foi durante aquele período difícil no acampamento que Cleonice descobriu que estava grávida novamente, seria a terceira filha do casal. A notícia trouxe alegria, mas também preocupação, viver em um barraco de lona não era o ambiente ideal para uma gestação, ainda assim, a vida seguia. Os meses passaram e a luta pela terra avançava, enquanto isso, a barriga de Cleonice crescia e o nascimento da criança se aproximava.

Foi quando uma nova notícia chegou ao acampamento: A terra finalmente seria liberada.

Depois de anos de disputas judiciais e negociações, o governo finalmente decidiu criar um assentamento na região. A antiga fazenda que havia sido motivo de conflitos seria dividida, parte permaneceria com os antigos proprietários e outra parte seria destinada às famílias acampadas. Era a realização de um sonho mas também o início de um novo desafio, as famílias precisariam se mudar para a área do assentamento e lá não havia absolutamente nada, nem casas, nem estradas, nem energia, nem água encanada, era apenas terra,  mata e  coragem.

O NASCIMENTO NO ASSENTAMENTO

No final de 1985, as primeiras famílias começaram a se deslocar para a área que mais tarde daria origem ao município de Novo Horizonte do Sul. Naquela época, porém, o lugar  era apenas uma área rural ligada administrativamente à cidade de Ivinhema. O casal lembra bem daquele momento.

— “Natal nós já passamos aqui.”

A mudança foi feita com o pouco que tinham: alguns móveis, algumas ferramentas, algumas roupas e muita esperança.

Quando chegaram ao local, encontraram novamente um cenário familiar.

— “Não tinha nada. Só coragem.”

Era novamente o começo do zero, mas desta vez havia uma diferença fundamental. Agora aquela terra poderia, finalmente, se tornar deles.

Quando  chegaram ao assentamento, Cleonice já estava nos últimos meses de gravidez. Pouco tempo depois da chegada, o momento do parto chegou, mas não havia hospital, posto de saúde ou médicos. A criança nasceu ali mesmo, dentro do assentamento, no meio da mata, no fundo do lote.

— “A Neiva nasceu aqui.”

Foi um nascimento simples, sem estrutura médica, mas cheio de significado. Era o primeiro filho do casal nascido na terra conquistada, um símbolo da nova vida que começava ali, anos depois ainda nasceriam mais dois filhos: Eva e Adão.

Todos cresceriam naquele lugar que, no começo, era apenas um acampamento no meio da mata, mas que aos poucos começava a se transformar em comunidade. Quando as famílias chegaram à nova área de assentamento, encontraram apenas terra bruta, mata fechada, rios, capoeiras e uma imensidão de terra ainda intocada. Era ali que cerca de 700 famílias começariam a construir uma nova história.

Uma terra que precisava ser aberta com as próprias mãos. Cada família precisou escolher um espaço provisório próximo ao acampamento inicial para construir um abrigo, os primeiros barracos começaram a surgir rapidamente, madeiras cortadas na mata, folhas de coqueiro e  lonas trazidas do acampamento, assim nasceram as primeiras moradias, simples e pequenas, mas suficientes para proteger as famílias da chuva e do sol.

Com tantas famílias chegando ao mesmo tempo, foi necessário organizar o território, a antiga fazenda era enorme, por isso, as lideranças decidiram dividir os trabalhadores em diferentes pontos da área, surgindo assim as primeiras comunidades, cada uma delas reunia um grupo de famílias, entre os nomes que começaram a aparecer estavam:

  • Agua da Onça
  • Figueira
  • Santa Rosa
  • Guadalupe
  • Guavirá

Essas pequenas comunidades seriam o embrião da organização social da região, ali se formariam as primeiras igrejas, escolas, campos de futebol e centros comunitários, mas naquele momento tudo ainda era improvisado, o importante era sobreviver.

Mesmo sem saber exatamente qual seria o lote definitivo de cada família, os trabalhadores precisavam plantar, a comida precisava vir de algum lugar. Foi então que as lideranças tomaram uma decisão prática, cada família receberia um pequeno espaço provisório para cultivar alimentos.

— “Deram meio alqueire para cada um plantar.”

Esses pequenos pedaços de terra ficavam próximos ao acampamento. Ali os agricultores começaram a plantar rapidamente aquilo que garantiria a alimentação básica: milho, feijão, arroz e mandioca. A produção não era grande, mas era suficiente para garantir a sobrevivência das famílias. Enquanto isso, muitos homens continuavam saindo da área para trabalhar em serviços temporários em fazendas, colheita de lavouras e corte de capim, alguns também começaram a coletar sementes de capim para vender, era um trabalho duro, mas qualquer renda ajudava.

— “Nós colhia semente de capim para vender pros fazendeiros.”

 

O SORTEIO DOS LOTES

Meses depois da chegada das famílias, começou finalmente o processo de divisão oficial das terras. O trabalho foi conduzido pelo INCRA, órgão responsável pela reforma agrária no Brasil, primeiro vieram os técnicos e depois começaram as medições, era preciso abrir picadas na mata para marcar os limites das propriedades e os próprios agricultores ajudaram nesse trabalho.

— “Nós ajudávamos a roçar as picadas.”

Com facões e enxadas, eles abriam corredores dentro da mata e esses corredores marcariam as futuras divisas dos lotes. Depois disso, os técnicos começaram a instalar os marcos, pequenas estacas que delimitavam cada propriedade e quando tudo estava pronto, chegou o momento mais esperado: o sorteio.

Uma grande reunião foi organizada e os nomes das famílias foram colocados em uma urna e um a um, os números dos lotes eram sorteados. Cada número representava uma área dentro da fazenda, era um momento de tensão e emoção, todos queriam saber onde ficaria sua nova terra. Deoclésio lembra bem daquele dia:

— “O nosso lote foi o número 412.”

Era o início oficial da vida como proprietário rural, mas ainda haveria desafios.

A TROCA DO LOTE

Depois de conhecer a localização do lote sorteado, Deoclécio percebeu um problema, a área não possuía água suficiente e para quem dependia da agricultura, isso poderia se tornar um grande obstáculo. Algum tempo depois surgiu uma oportunidade, outro assentado estava interessado em trocar de lote, ele acreditava que aquela terra não era boa para agricultura, achava fraca e sem muito potencial, mas Deoclécio, porém enxergou ali uma possibilidade. A troca foi realizada oficialmente com autorização do INCRA e assim a família mudou de área dentro do assentamento, seria naquele novo lote que começariam a construir sua verdadeira casa.

A PRIMEIRA CASA

Quando chegaram ao novo lote, o cenário era novamente desafiador, não havia estrada,  casa e poço, era apenas mata. O governo forneceu alguns materiais básicos para ajudar no início da construção: eternit para cobertura , pregos e  três tubos para fazer o poço. Com esses poucos recursos e muita criatividade, Deoclécio começou a construir a primeira moradia.

A casa era simples, as paredes foram feitas com coqueiros e madeira da própria mata, o telhado com placas de eternit e o piso era chão batido, mas para aquela família, aquilo representava muito mais do que uma simples casa, era o símbolo da conquista, a prova de que a luta havia valido a pena. A água vinha de uma mina natural próxima ao córrego, era ali que a família buscava água para beber, cozinhar e lavar roupa, Cleonice lembra que lavava roupas no próprio córrego. era uma rotina difícil mas era também uma vida nova.

A família viveu cerca de três anos nessa primeira casa improvisada no fundo do lote. Durante esse período, a rotina era intensa, todos os dias começavam cedo, o trabalho na roça era pesado. Primeiro era preciso limpar a área, a mata havia sido tratada com veneno anteriormente pelos antigos proprietários da fazenda para formar pastagens, as árvores estavam secas e caíam no chão com facilidade, mas ainda assim era preciso limpar tudo.

Deoclécio lembra de trabalhar sozinho muitas vezes.

— “Eu sozinho no meio do mato.”

O calor era intenso e os insetos também. Um dos episódios que ele nunca esqueceu foi quando foi atacado por marimbondos.

— “Eles pegavam na gente e a gente saia correndo no sol quente.”

Mesmo ferido, ele voltava para casa, passava álcool nas ferroadas e retornava ao trabalho. Era a única forma de avançar, cada metro de terra precisava ser conquistado.

Com o passar dos anos, a vida no assentamento começou lentamente a melhorar, novas casas foram sendo construídas, algumas de madeira outras de alvenaria. As estradas começaram a surgir, as comunidades se organizaram e grejas começaram a ser construídas. Campos de futebol foram abertos, e as festas comunitárias começaram a acontecer. A região que antes era apenas mata começava a se transformar em um verdadeiro território rural organizado. Era o nascimento de uma nova sociedade, formada por agricultores que haviam atravessado fronteiras, enfrentado despejos, vivido em acampamentos e suportado anos de dificuldades.

Nos primeiros anos do assentamento, a prioridade das famílias era clara: sobreviver: era preciso plantar, construir casas, abrir estradas e garantir alimento, mas havia outra preocupação igualmente importante: A educação das crianças.

As famílias que haviam chegado à região traziam consigo filhos pequenos e muitas dessas crianças tinham idade para frequentar a escola e não existia nenhuma estrutura educacional. A comunidade decidiu que os filhos precisavam estudar e a solução encontrada foi simples e carregada de significado, as primeiras escolas foram construídas com barracos de lona. Eram pequenas estruturas improvisadas, um pedaço de terreno limpo, alguns troncos servindo de pilares, lona preta cobrindo o teto e as laterais e dentro, algumas tábuas improvisadas como bancos. Ali começaram as primeiras aulas.

Alunos da Escola Casemiro de Abreu – Linha da Amizade

AS PROFESSORAS PIONEIRAS

Entre as primeiras pessoas que aceitaram o desafio de ensinar as crianças da comunidade estavam professoras que se tornaram verdadeiras pioneiras da educação local. Deoclécio e Cleonice lembram de algumas delas com carinho, uma das primeiras foi a professora Amélia, conhecida na região como “a japonesa”, foi Ângela de Viana, a Cleidona, que trabalhava em outra comunidade do assentamento.

Essas educadoras enfrentavam enormes dificuldades, as escolas eram improvisadas, os materiais didáticos eram escassos e os alunos de diferentes séries estudavam todos juntos.

— “Era tudo misturado”, lembra Cleonice.

Como muitas professoras vinham de outras regiões, surgiu um novo problema: onde elas iriam morar? Não havia casas disponíveis e nem hospedagem, e mais uma vez, a solução veio da própria comunidade,  as famílias começaram a oferecer quartos em suas casas.

— “Nós demos moradia para vários professores.”

As professoras passavam a semana inteira no assentamento, dormiam nas casas dos moradores, comiam junto com as famílias e nos finais de semana voltavam para visitar seus parentes em cidades próximas. Essa convivência criou laços fortes entre professores e moradores.

A escola não era apenas um lugar de aprendizado, era também um espaço de convivência e de construção comunitária. As crianças do assentamento cresceram em um ambiente completamente diferente das cidades, o caminho para a escola muitas vezes era feito a pé, e algumas caminhavam quilômetros pelas picadas abertas na mata, outras iam de bicicleta e havia também aquelas que simplesmente atravessavam o mato para chegar até o barraco onde aconteciam as aulas.

Mas estudar era motivo de orgulho. Os pais sabiam que estavam oferecendo aos filhos uma oportunidade que muitos deles próprios não haviam tido. Nilce e Neide, as filhas mais velhas de Deoclécio e Cleonice, começaram a estudar nesse sistema improvisado. Mais tarde, com a chegada de novas estruturas, as escolas passaram a ter prédios simples de madeira, mas naquele início, a educação começou literalmente debaixo da lona.

Enquanto a comunidade se organizava socialmente, a agricultura também começava a evoluir. Nos primeiros anos, as plantações eram voltadas principalmente para a alimentação das próprias famílias: milho, feijão, arroz e mandioca. Essas culturas garantiam o básico para o sustento, e aos poucos alguns agricultores começaram a investir em uma cultura que poderia gerar renda, o algodão.

A produção de algodão começou a crescer na região. Era um produto valorizado no mercado agrícola da época,  problema e que não existiam compradores próximos. Foi então que  uma cooperativa agrícola começou a operar na região. A cooperativa comprava a produção dos agricultores e ajudava na comercialização, isso permitiu que muitos assentados passassem a produzir não apenas para consumo, mas também para venda, era o início da economia rural organizada da região.

Nos primeiros anos, deslocar-se dentro do assentamento era extremamente difícil, pois as estradas eram precárias. Muitas vezes não passavam de trilhas abertas no meio da mata. O principal meio de transporte era simplesmente andar a pé.

— “Primeiro era a pé”, lembra Deoclécio.

Depois vieram as bicicletas. Para quem conseguia comprar uma, aquilo representava um enorme avanço. Mais tarde surgiram as carroças puxadas por cavalos, para muitas famílias, possuir uma carroça era motivo de orgulho.

— “Uma carroça e um cavalo… pra nós tava rico.”

Com a carroça era possível transportar produção agrícola, levar a família até outras comunidades e participar de eventos religiosos ou esportivos, era o progresso chegando lentamente.

O FUTEBOL COMO LAZER

Mesmo diante de tantas dificuldades, havia espaço para momentos de lazer, o futebol era a principal diversão dos moradores. Os campos eram improvisados, bastava um pedaço de terreno limpo,  algumas traves feitas de madeira e  uma bola. Os campeonatos entre comunidades começaram a surgir. Era um momento de encontro entre as famílias. Deoclécio também participou desses jogos.

— “Nós disputamos o primeiro campeonato.”

Os homens jogavam futebol enquanto as famílias se reuniam ao redor do campo, muitas mulheres levavam comida, as crianças brincavam e era uma festa comunitária.

Mesmo sem grandes estruturas, aqueles momentos criavam uma sensação de união entre os moradores. Além do futebol, as comunidades começaram a organizar festas religiosas e bailes, as igrejas passaram a ser centros de convivência. Quando havia uma festa em alguma comunidade, as famílias se deslocavam juntas, muitas vezes em carroças.

— “Ia todo mundo junto.”

Era comum ver filas de carroças atravessando as estradas de terra durante a noite. As famílias iam vestidas para a festa, conversavam e cantavam, era um momento de alegria depois de semanas de trabalho duro.

— “Naquele tempo era gostoso por isso”, lembra Cleonice.

A vida comunitária era forte e as famílias permaneciam unidas, todos se conheciam e se ajudavam. Com o passar dos anos, aquilo que havia começado como um assentamento improvisado começou a se transformar em uma comunidade estruturada:  casas, escolas, estradas, pequenos comércios, igreja e, campos de futebol. A região crescia, a população aumentava, e a área que um dia foi apenas mata se transformava em um território produtivo. A história daqueles agricultores, que haviam migrado para o Paraguai e depois retornado ao Brasil em busca de terra, estava profundamente ligada ao nascimento daquela região.

Eles eram os pioneiros, os construtores e os desbravadores e ficariam conhecidos para sempre como Brasiguaios.

Deoclécio lembra que uma das primeiras estradas da região terminava abruptamente em um ponto conhecido como baixada, próximo a um córrego, a partir dali não havia continuidade, para chegar até suas propriedades os moradores precisavam fazer grandes voltas, mas a própria comunidade começou a resolver esse problema e alguns agricultores decidiram doar pequenas faixas de suas terras para permitir a abertura de novas passagens.

Com muito esforço coletivo, as estradas começaram a surgir. Máquinas da prefeitura de Ivinhema quando disponíveis, eram utilizadas para nivelar o terreno. Assim, pouco a pouco, as rotas começaram a conectar as comunidades, era o início da infraestrutura rural da região.

A CHEGADA DA ENERGIA

Outro momento marcante para os moradores foi a chegada da energia elétrica. Durante muitos anos, as famílias viveram apenas com lamparinas, velas e lampiões, as noites eram iluminadas por pequenas chamas tremulantes. Quando finalmente surgiu a possibilidade de levar energia até a comunidade, o processo não foi simples, a rede elétrica inicialmente chegou apenas até uma das escolas da região e a partir dali, alguns moradores organizaram um sistema improvisado para levar eletricidade até outras casas próximas. Era uma estrutura quase particular e os moradores precisavam contribuir financeiramente para manter a rede funcionando. Somente anos depois a rede foi oficialmente integrada ao sistema estadual de energia, e mesmo assim, a chegada da eletricidade representou uma verdadeira revolução na vida das famílias. Agora era possível ter geladeiras, televisores e iluminação mais eficiente, era mais um sinal de que a região estava evoluindo.

O NASCIMENTO DA CIDADE

Enquanto as comunidades rurais cresciam, uma pequena área urbana também começou a se desenvolver. O local que havia sido reservado pelo INCRA para a formação de um núcleo urbano começou a receber moradores. Pequenos comércios foram surgindo, armazéns, mercearias, oficinas, postos de atendimento, a população aumentava e as estruturas públicas começavam a aparecer.

Com o passar dos anos, aquela pequena vila se transformaria oficialmente no município de Novo Horizonte do Sul. Uma cidade construída do zero, erguida por agricultores que haviam atravessado fronteiras, enfrentado despejos, vivido em barracos de lona e suportado anos de dificuldades.

AS MARCAS DO TEMPO

Hoje, décadas depois daqueles primeiros anos de luta, muita coisa mudou: as estradas estão abertas, a energia elétrica chegou, a cidade cresceu. Os filhos cresceram, as comunidades estão estruturadas, mas para quem viveu aquele início, as lembranças permanecem vivas. Cada pedaço de terra carrega uma história, cada estrada aberta lembra o esforço coletivo, cada casa construída representa uma conquista.

Para Deoclécio, todas as lembranças são marcantes.

— “Pra mim todas marcaram. Tudo foi com sofrimento.”

Ele lembra das dificuldades no meio do mato, das ferroadas de marimbondos, do sol forte, da solidão durante o trabalho pesado mas também lembra da união das famílias, da solidariedade entre vizinhos, da coragem de continuar mesmo quando tudo parecia impossível. Deoclécio e Cleonice passaram praticamente toda a vida construindo sua história naquela terra. Ali criaram seus filhos: Nilce, Neide, Neiva, Eva e Adão.

Ali viram nascer comunidades, ali viram crescer uma cidade,  transformaram um pedaço de mata em um lar. Hoje, quando olham para trás, sabem que cada dificuldade fez parte de uma jornada maior,  uma jornada de luta, de perseverança e de fé no futuro.

A história de Deoclécio e Cleonice não é apenas uma história de família, ela representa a trajetória de milhares de brasileiros que migraram para o Paraguai em busca de trabalho e depois retornaram ao Brasil para lutar por terra. Esses trabalhadores ficaram conhecidos como Brasiguaios, eles ajudaram a ocupar e desenvolver diversas regiões do país, transformaram áreas vazias em comunidades produtivas, construíram escolas, igrejas e a cidade. Seu legado permanece vivo na paisagem rural do Brasil e especialmente na história de Novo Horizonte do Sul.

Onde antes havia apenas mata, agora existem lavouras, casas e comunidades. Onde antes havia barracos de lona, agora existem escolas, igrejas e estruturas públicas e por trás de cada construção existe uma história: histórias de homens e mulheres que acreditaram que era possível recomeçar. Histórias como a de Deoclécio Gubert e Cleonice Fátima Gubert. Pioneiros, desbravadores, construtores de uma nova terra e guardiões de uma memória que jamais deve ser esquecida.

Quando perguntados se fariam tudo novamente, mesmo com tanto sofrimento, Deoclécio reflete, cada dificuldade deixou uma marca, cada conquista veio com sacrifício, mas foi ali que construíram sua vida, criaram seus filhos e viram nascer uma comunidade, e por isso, mesmo depois de tantos anos, ele afirma:

“Enquanto a gente aguentar… nós estamos aqui.”

 

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