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02 abril 2026, 22:59 PM

“Brasiguaios: a história contada por Antônio Luiz Augustinho, o Pastel”

Antônio Luiz Augustinho, o Pastel

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“Muitas Vozes, Uma Só História” – Uma série documental do Portal KF News

BRASIGUAIOS – A TERRA, A LUTA E O NASCIMENTO DE NOVO HORIZONTE DO SUL

A câmera abre devagar.

O som não é de máquinas, nem de cidade. É o som do vento batendo na vegetação, o canto distante de pássaros e o barulho seco de passos sobre a terra vermelha. Terra que mancha o sapato, que entra debaixo da unha, que fica na memória. A mesma terra que moldou gerações inteiras no interior do Brasil.

Antes de ser prefeito.
Antes de ser liderança.
Antes de ser conhecido como Pastel.

Havia apenas um homem simples, filho do interior, marcado pelo deslocamento, pelo trabalho duro e pela busca incessante por pertencimento.

“Sou pé-vermelho. Sou paranaense.”

Antônio Luiz Augustinho nasceu em 16 de agosto de 1955, no estado do Paraná. O termo “pé-vermelho”, usado por ele com orgulho, não é apenas uma expressão regional: é um símbolo. Representa o trabalhador rural, aquele que cresceu pisando na terra crua, sem asfalto, sem conforto, mas com dignidade.

Sua família nunca coube dentro de uma única definição. Era uma família mesclada, como tantas no Brasil profundo. Os irmãos mais velhos nasceram em São Paulo. Ele e a irmã mais nova, no Paraná. Ao todo, eram seis irmãos, criados em meio às constantes mudanças impostas pela necessidade de trabalho e sobrevivência.

Desde cedo, Antônio aprendeu uma lição que atravessaria toda a sua vida:
quem não se move, fica para trás.

A escola, como aconteceu com milhares de brasileiros da sua geração, foi interrompida não por falta de vontade, mas por falta de escolha. Ele cursou o segundo grau de forma incompleta. No último ano, precisou parar.

“No último ano do segundo grau… eu parei de estudar. Nós viemos pra cá.”

Estudar ou trabalhar.
Ficar ou migrar.
Criar raízes ou continuar andando.

No Brasil rural das décadas de 1960 e 1970, essas decisões não eram filosóficas. Eram urgentes.

Em 1976, Antônio se casa. O casamento marca o início de uma nova etapa — e também de uma longa sequência de deslocamentos. Como tantos jovens do interior, ele segue para São Paulo, atraído pela promessa de emprego e estabilidade. Permanece ali até 1982, vivendo o cotidiano duro da migração interna brasileira: trabalho pesado, distância da terra natal e a sensação constante de ser apenas mais um.

Mas o destino de Antônio não estava no concreto das grandes cidades.

Estava na fronteira.

Quando retorna, a vida o leva para um lugar onde o Brasil termina — ou começa — dependendo de quem olha. O Paraguai surge não como escolha ideológica, mas como alternativa concreta de sobrevivência.

“Nós morávamos na fronteira. O sítio do meu pai fazia cabeceiro no Paraguai.”

A fronteira, para os brasiguaios, nunca foi uma linha no mapa. Era um espaço fluido, confuso, onde se plantava de um lado e colhia do outro. Onde se falava português, espanhol e guarani no mesmo dia. Onde se trabalhava muito, mas se tinha pouco direito.

Antônio passa a arrendar terras no Paraguai. Trabalha como agricultor, produz, sustenta a família. Mas a terra não era sua. E essa condição — produzir sem possuir — cria uma ferida silenciosa que só cresce com o tempo.

Ele vivia no Paraguai, mas era brasileiro.
Produzia no Paraguai, mas não tinha segurança.
Trabalhava a terra, mas não podia chamá-la de sua.

“Eu tocava terra no Paraguai. Eu tinha arrendamento lá. Eu trabalhava no Paraguai.”

Esse trecho do depoimento é curto. Mas o que ele carrega é imenso.

Arrendamento significa instabilidade. Significa saber que, a qualquer momento, tudo pode acabar. A plantação, o barraco, o futuro. É viver com a sensação de que o chão pode desaparecer sob os pés.

E foi exatamente essa insegurança que, aos poucos, começou a mover centenas de famílias brasileiras que viviam na mesma situação. Homens, mulheres e crianças que atravessaram a fronteira em busca de trabalho e acabaram presos numa condição invisível: nem paraguaios, nem plenamente brasileiros.

O termo ainda não era amplamente conhecido.
Mas a identidade já estava sendo forjada.

Brasiguaios.

Antônio Luiz Augustinho ainda não sabia, naquele momento, que sua história pessoal estava prestes a se cruzar com um dos maiores movimentos sociais da história recente do Brasil. Ele ainda não imaginava que sairia dos barracos improvisados para ocupar cargos públicos. Muito menos que se tornaria o primeiro prefeito de um município que ainda nem existia.

Por enquanto, ele era apenas mais um trabalhador rural, vivendo na fronteira, tentando garantir o básico para a família.

Mas a terra, quando falta, começa a chamar.

A fronteira não tem cerca.

Ela existe nos mapas, nos decretos, nos discursos oficiais. Mas, para quem vive nela, a fronteira é um estado permanente de incerteza. Um lugar onde se dorme em um país e se acorda no outro. Onde se planta em solo estrangeiro com mãos brasileiras. Onde o idioma muda no meio da conversa, mas a necessidade continua a mesma.

Foi nesse espaço indefinido que Antônio Luiz Augustinho construiu parte importante da sua vida adulta.

“Nós morávamos na fronteira.”

A frase é simples. Mas ela resume uma experiência complexa, compartilhada por milhares de famílias brasileiras que, a partir das décadas de 1960 e 1970, atravessaram para o Paraguai em busca de terra barata e oportunidade de trabalho. O Brasil vivia concentração fundiária, mecanização acelerada e expulsão silenciosa do pequeno produtor. O Paraguai, por outro lado, oferecia arrendamentos acessíveis, áreas produtivas e a promessa — quase sempre ilusória — de estabilidade.

Antônio não era invasor.
Não era aventureiro.
Era trabalhador.

Arrendava terra, plantava, colhia, sustentava a família. Mas havia um detalhe fundamental: a terra nunca era dele.

O sítio do pai fazia divisa com o Paraguai. A linha imaginária da fronteira cruzava a própria lógica da sobrevivência familiar. De um lado, o Brasil. Do outro, o trabalho. Era comum atravessar com naturalidade, como se não houvesse país, apenas chão.

Mas havia leis.
Havia donos.
Havia interesses.

O modelo do arrendamento criava uma relação desigual. O agricultor fazia todo o esforço: limpava a terra, plantava, cuidava, colhia. O proprietário ficava com a parte garantida. Se quisesse, renovava o contrato. Se não quisesse, encerrava. Não havia estabilidade, nem segurança jurídica, nem futuro assegurado.

“Eu tocava terra no Paraguai. Eu tinha arrendamento lá.”

A cada safra, a mesma pergunta silenciosa: e depois?

Esse sentimento começou a se espalhar entre os brasileiros que viviam na região. Famílias inteiras, muitas com crianças pequenas, envelhecendo em barracos improvisados, sem escola adequada, sem assistência regular de saúde, sem direitos garantidos. Trabalhavam como donos, mas viviam como provisórios.

Era uma vida suspensa.

Ao mesmo tempo, o contexto político da época tornava tudo ainda mais frágil. O Paraguai vivia sob a ditadura de Alfredo Stroessner. O Brasil saía lentamente de um regime militar. A questão da terra não era prioridade para nenhum dos lados — e os brasiguaios ficavam no meio, invisíveis para ambos os Estados.

Não eram reconhecidos como problema.
Nem como solução.

Mas a insatisfação começou a ganhar corpo.

Ainda não havia grandes reuniões. Ainda não havia lideranças claras. Mas havia conversa. Nas beiras de estrada, nos fundos de barraco, nas noites quentes depois do trabalho pesado. Um comentário aqui, outro ali.

“Será que não tem terra no Brasil?”
“Será que a gente não tem direito?”
“Será que dá pra voltar?”

Antônio acompanhava tudo à distância, como ele mesmo faz questão de ressaltar. Ele não estava entre os primeiros articuladores do movimento. Não discursava, não organizava assembleias. Mas observava. E quem observa, entende.

“Alguns detalhes dessa história eu não tenho, porque eu acompanhava à distância o começo do movimento.”

Essa frase revela muito sobre o caráter de Antônio. Ele não tenta se colocar como protagonista de tudo. Reconhece os limites da própria memória. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário: mostra um homem atento, cauteloso, que só entra na luta quando entende que ela é real.

Em 1984, a movimentação ganha forma. Grupos começam a se organizar para retornar ao Brasil. Não por nostalgia, mas por necessidade. A palavra “retorno” não significava voltar para casa. Significava buscar um lugar onde a terra fosse, finalmente, própria.

Aquela terra que eles sabiam existir. Terra devoluta. Terra pública. Terra sem uso social.

“Era uma invasão. A gente sabia que essa terra era devoluta.”

Esse reconhecimento é importante. Não se tratava de tomar o que era de alguém, mas de reivindicar o que estava abandonado pelo Estado. Era um movimento político, social e humano.

Antônio, nesse primeiro momento, não fica no acampamento. Seu papel é outro.

“Eu vim como transportador. Vim trazer o pessoal com o caminhão do meu irmão e voltei.”

Ele ajuda como pode. Leva famílias, móveis, ferramentas, sonhos. Usa o caminhão como ponte entre dois mundos: o da esperança e o da incerteza.

Mas ele volta.

Ainda não é a hora dele.

O que poucos sabiam, naquele momento, é que a luta pela terra raramente termina quando se imagina. Ela apenas muda de forma. Aquele primeiro movimento, em 1984, não se consolida. O grupo se dispersa. Alguns vão para Ivinhema, outros para Dourados, outros para a Gleba Padroeira.

Mas algo havia sido plantado.

“A semente continuou. A luta continuou.”

Essa semente germinaria no ano seguinte, com força muito maior, impulsionada por um novo cenário político no Brasil. Um país que saía oficialmente da ditadura e prometia mudanças. Um novo presidente. Uma nova república. Uma nova esperança.

Para os brasiguaios, essa esperança tinha endereço.

E ele se chamava Mundo Novo.

A história muda de marcha quando a política muda de cenário.

O ano é 1985. O Brasil vive um momento de transição delicado e carregado de expectativas. Depois de duas décadas de regime militar, o país ensaia a volta da democracia. Tancredo Neves é eleito indiretamente, adoece, morre. Assume o vice. José Sarney toma posse como o primeiro presidente civil do período pós-ditadura.

Para milhões de brasileiros, isso significava apenas troca de governo.
Para os brasiguaios, significava uma brecha.

“Quando o Sarney assumiu, o movimento se fortaleceu.”

A frase de Antônio Luiz Augustinho é direta, sem floreios. Mas ela carrega um peso histórico. A nova conjuntura política permitia, pela primeira vez em anos, que movimentos sociais fossem ouvidos sem repressão imediata. Era o momento de falar. E os brasiguaios decidiram falar alto.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) teve papel fundamental nesse processo. Ligada à Igreja Católica e com forte atuação junto a trabalhadores rurais, a CPT passou a organizar, orientar e dar visibilidade ao drama das famílias brasileiras que viviam no Paraguai em situação de insegurança fundiária.

Não se tratava apenas de terra.
Tratava-se de dignidade.
De pertencimento.
De futuro.

Uma comissão formada por lideranças do movimento, representantes da CPT e apoiadores políticos conseguiu algo que, até pouco tempo antes, parecia impossível: uma audiência com o presidente da República.

“Eles conseguiram uma audiência com o presidente Sarney.”

Naquela reunião, os brasiguaios expuseram sua situação. Contaram sobre o arrendamento precário, a falta de direitos, o risco constante de expulsão. Pediram apoio. Pediram solução.

A resposta de Sarney foi simples — e decisiva.

“Como posso ajudar vocês no Paraguai? Vocês têm que vir para o Brasil.”

A frase não vinha acompanhada de um plano detalhado. Não havia garantias escritas. Mas, para quem vivia sem nada, aquela fala representava um convite oficial ao retorno. E, mais do que isso, um reconhecimento político de que o problema existia.

O movimento não perdeu tempo.

A decisão foi rápida. A organização, impressionante.

“A reunião foi no começo de junho. Dia 14 de junho, o pessoal já estava lá.”

14 de junho se tornaria uma data histórica. O marco inicial do acampamento que reuniria mais de 1.200 famílias de brasiguaios em território brasileiro.

O local escolhido foi Mundo Novo, no Mato Grosso do Sul. Um ponto estratégico, próximo à fronteira, que permitiria a chegada rápida das famílias vindas do Paraguai.

Não era um assentamento.
Não era uma cidade.
Era um descampado que, em poucos dias, se transformaria em um mar de lona preta, barracos improvisados e gente cansada — mas cheia de esperança.

Antônio Luiz Augustinho, mais uma vez, não se coloca como protagonista do início. Seu papel continua sendo o de apoio logístico. E esse apoio foi essencial.

“Eu vim trazendo o pessoal, com a perua rural do meu irmão.”

A imagem é forte: uma perua rural cruzando estradas de chão, carregada de famílias inteiras, colchões amarrados, panelas batendo, crianças no colo, sacolas com o pouco que restava de uma vida inteira no Paraguai.

Ele ia e voltava.
Buscava mais gente.
Levava mais sonhos.

“Buscava o pessoal e voltava.”

Até que, em determinado momento, a realidade se impõe.

“Eu tinha intenção de montar um comércio lá na fronteira. Mas aí eu pensei: vou negociar com quem?”

A pergunta não é retórica. Ela marca o ponto de virada. A fronteira estava esvaziando. As famílias estavam indo embora. O movimento ganhava corpo. Ficar para trás significava isolamento.

Antônio entende que não faz mais sentido resistir sozinho.

“Aí eu entrei pro movimento.”

Esse ingresso não é narrado como um ato heroico, mas como uma decisão racional e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Quando todos caminham em uma direção, permanecer parado vira uma forma de exclusão.

Agora, Antônio não é mais apenas o transportador. Ele passa a ser parte do acampamento. Parte da massa de homens, mulheres e crianças que passariam a viver sob lona, dividindo tudo: comida, medo, esperança.

O acampamento de Mundo Novo cresce rapidamente. Barracos surgem um ao lado do outro. Não há ruas, não há saneamento, não há energia. Há organização comunitária e uma disciplina construída na necessidade.

Cada família carrega sua história.
Cada barraco, sua dor.
Cada noite, sua incerteza.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, havia também algo novo:
a sensação de que a terra, finalmente, poderia ser possível.

A promessa estava feita.
Agora, era preciso sobreviver até que ela se cumprisse.

As imagens se abrem com um plano geral.

Barracos de lona preta se espalham pelo terreno. Não há ruas definidas. Apenas trilhas abertas pelo vai-e-vem constante de gente. Crianças descalças correm entre os barracos. Panelas penduradas em pregos improvisados. Fumaça subindo de fogões à lenha montados no chão.

O Acampamento de Mundo Novo nasce assim: rápido, improvisado e cheio de vida.

“Tinha em torno de 1.200 famílias.”

Não era pouca gente. De uma hora para outra, uma cidade inteira se formou sem qualquer infraestrutura. Mundo Novo, que já era pequena, não estava preparada para receber aquele contingente humano.

E, ainda assim, o acampamento não era um amontoado desorganizado.

“Já era organizado, dividido por grupo.”

A organização vinha da experiência. Muitos daqueles homens e mulheres já tinham passado por outras ocupações, outras lutas, outras derrotas. Sabiam que, sem ordem, o movimento não sobreviveria.

Os grupos eram formados por afinidade regional. Quem vinha da mesma área do Paraguai ou do mesmo local de origem no Brasil tendia a ficar junto. Antônio deveria integrar o grupo do Canindeyú, mas a realidade impôs outra escolha.

“Onde estava o povo do Canindeyú não tinha mais lugar pra barraco.”

A solução foi mudar de grupo.

“Fomos pro Guavirá.”

O nome, de origem indígena, passou a identificar não apenas um setor do acampamento, mas uma identidade coletiva. Cada grupo tinha responsabilidades, lideranças, tarefas definidas.

Nada era fácil.
Mas tudo era compartilhado.

FOME, DOENÇA E RESISTÊNCIA

A pergunta inevitável surge durante a entrevista:

“O pessoal passava dificuldade com comida, com remédio?”

Antônio responde com cuidado. Não romantiza o sofrimento, mas também não exagera.

“Não era bom. Mas também não era esse terror todo que muita gente fala.”

A chegada repentina de milhares de pessoas colapsou os serviços públicos. O município não tinha médicos suficientes. Não havia estrutura para atender aquela demanda.

“Entrou quatro, cinco mil pessoas e não aumentou médico nenhum.”

Doenças simples se tornavam graves. Casos que hoje seriam resolvidos com atendimento básico ganhavam contornos dramáticos.

Ele lembra de uma das cenas mais duras daquele período:

“O João Felipe, meu companheiro de barraco, perdeu um filho. Um bebê de uns seis meses.”

A morte de uma criança em um acampamento não é apenas uma tragédia familiar. Ela se espalha. Ela silencia barracos vizinhos. Ela reforça o medo coletivo.

E, ainda assim, o movimento seguia.

No que diz respeito à alimentação, havia um mínimo de assistência.

“A cada quinze dias vinha uma carreta com comida.”

Cestas básicas eram distribuídas. Arroz, feijão, óleo, farinha. Não era fartura, mas garantia sobrevivência.

“Nessa parte aí, nós fomos bem tratados.”

O apoio vinha do governo estadual e federal. Antônio cita diretamente o então governador Wilson Barbosa Martins, além do governo Sarney.

Mas a ajuda tinha limites.

Não havia:
– sabão
– café
– fumo
– produtos de higiene

“O governo mandava o principal, mas o resto a gente tinha que se virar.”

E eles se viraram.

O TRANSPORTE, OS CAMINHÕES E O NASCIMENTO DO ‘PASTEL’

Quando chega o momento da transferência definitiva para o assentamento que daria origem a Novo Horizonte do Sul, uma nova logística é montada.

Não era uma simples mudança.
Era o deslocamento de centenas de famílias.

Caminhões do DER, da Enersul, da Agrosul e de outras empresas públicas foram mobilizados.

“Saía quatro caminhões de mudança e um ônibus de passageiros.”

Mulheres, crianças e idosos iam nos ônibus. As mudanças iam empilhadas nos caminhões. Ferramentas, colchões, roupas, panelas.

“Não tinha muita coisa pra carregar.”

E foi em uma dessas viagens que Antônio ganhou o apelido que o acompanharia pelo resto da vida.

A parada em Naviraí parece uma cena quase cômica, não fosse o cansaço extremo de todos.

“Tinha só dois pastéis.”

A disputa pelos salgados vira confusão. Vozes alteradas. Cerveja. Fome acumulada. Antônio entra no meio para apaziguar.

No dia seguinte, o motorista grita:

“Cadê o povo do Pastel?”

O nome cola. Como cola tudo o que nasce na luta.

“Como todo mundo tinha apelido e eu não tinha… ficou Pastel.”

O apelido, dado de forma quase casual, vira identidade política, social e histórica. Antônio Luiz Agostinho passa a ser, para todos, Pastel.

O destino final ainda não era uma cidade. Era apenas terra.

“Quando chegamos aqui, não tinha nada demarcado.”

Foto: Arquivo pessoal

Cada grupo recebeu uma área provisória para acampar. O Grupo Guavirá ficou próximo à porteira da fazenda, à beira de um córrego.

Os nomes dos grupos se espalhavam pelo território:
– Guavirá
– Potequihá
– Santa Clara
– Corpo Christi
– Guadalupe
– Canindeyú
– Santa Rosa

“No total, eram uns sete grandes acampamentos.”

A terra tinha sinais de uso anterior. Lavouras de milho ainda verdes, tentativas apressadas de provar produtividade para impedir a desapropriação.

“Nós comíamos milho verde.”

Milho quebrado na roça alheia. Parte para comer. Parte escondida para secar e alimentar porcos depois.

Não era roubo.
Era sobrevivência.

Com o tempo, uma estrutura mínima começou a surgir.

Um posto de saúde improvisado foi construído com madeira, doada pela prefeitura de Ivinhema, com apoio do Estado.

“Tinha médico duas vezes por semana.”

Freiras ajudavam no atendimento. Medicamentos básicos eram distribuídos.

Casos graves precisavam ser removidos.

“A viatura da polícia era mais ambulância do que viatura.”

Antônio assume um papel central nesse período.

“Eu fiquei responsável pela pastoral da saúde do Guavirá.”

Se alguém adoecia, era ele quem corria atrás de socorro. Quem organizava transporte. Quem conversava com médicos.

Sem salário.
Sem cargo oficial.
Mas com responsabilidade real.

A ocupação já estava feita.
As famílias já estavam espalhadas pelo território.
Mas ainda faltava o mais importante: a terra precisava deixar de ser promessa e virar posse.

Isso não aconteceria com discursos.
Aconteceria com trabalho pesado.

“O INCRA veio com uma equipe grande.”

A chegada dos técnicos marca um novo capítulo. Não era mais apenas acampamento. Agora começava oficialmente o processo de demarcação do assentamento que viria a se chamar Novo Horizonte do Sul.

Mas não havia estrada.
Não havia acesso.
Não havia conforto.

“Tinha só picada. Estrada mesmo não tinha.”

As trilhas eram antigas rotas de retirada de madeira. Caminhos estreitos, cheios de curvas, lama, troncos e buracos. Por ali, caminhonetes do INCRA avançavam carregadas de estacas de madeira — os marcos que delimitariam cada lote.

E quem carregava esses marcos não eram funcionários do governo.

“Era nós.”

A regra era clara: cada grupo precisava enviar seis pessoas por dia para ajudar na demarcação.

Homens simples, muitos já cansados de roça, assumiam uma tarefa quase invisível, mas fundamental.

“Você colocava o marco nas costas e ia pela picada até o fundo do lote.”

Sol forte.
Picada fechada.
Distâncias longas.

Cada estaca carregada representava um futuro sendo desenhado. Um pedaço de chão que deixava de ser abstrato e passava a ter começo, meio e fim.

“Depois que demarcou, aí sim começou a tomar forma.”

Não havia reclamação. Não havia escolha. A consciência coletiva era clara: se não ajudassem, o assentamento não sairia do papel.

Era o cooperativismo na prática.
Era a reforma agrária feita com o próprio corpo.

Mesmo com a demarcação em andamento, a vida seguia dura.

O governo continuava ajudando com o básico, mas o dinheiro não existia. E sem dinheiro, não se compra o que não vem na cesta.

“Não tinha sabão, não tinha café, não tinha fumo.”

E havia outro problema: o tempo.

Enquanto o sorteio dos lotes não acontecia, ninguém sabia exatamente onde ficaria. Plantar era um risco. Mas não plantar era morrer de fome depois.

A decisão veio em conjunto.

“Foi permitido que a gente plantasse.”

O Estado, por meio de programas emergenciais, forneceu sementes de milho e arroz. Não era muito, mas era o suficiente para começar.

Antônio se junta ao parceiro Pedro Cacique.

“Nós dois plantamos quatro sacos de milho.”

Plantavam em terra que ainda não sabiam se seria deles.
Plantavam confiando que a justiça social chegaria antes da colheita.

Enquanto isso, muitos precisavam sair do assentamento para garantir algum dinheiro.

“Tinha que se virar.”

A região oferecia trabalho temporário.

Logo que chegaram, havia uma grande safra de algodão. Quase todos do grupo Guavirá foram colher.

Depois veio a colheita de semente de capim — um trabalho ainda mais pesado.

“Eu colhi muita semente de capim.”

Antônio mostra no braço uma cicatriz deixada pelo cortador. Não é apenas uma marca física. É um registro silencioso do que foi preciso atravessar para permanecer.

Mas foi em uma dessas idas e vindas, acompanhando doentes até Nova Andradina, que surge uma oportunidade inesperada.

Durante uma visita à Santa Casa, Antônio conversa com uma irmã religiosa. Conta das dificuldades. Da necessidade de trabalho.

A resposta vem direta:

“Vocês não querem trabalhar na usina?”

A proposta precisava de autorização. Nada era feito sem passar pela liderança do assentamento.

Uma reunião é convocada.

“A liderança autorizou até dois de cada família.”

Antônio assume uma nova função: passa a organizar a ida dos trabalhadores para a usina.

“Eu virei gato.”

O termo, comum no meio rural, define quem recruta e organiza mão de obra. Ele exerce essa função por cinco anos.

“Eu ganhava 10% do que o pessoal ganhava.”

Com esse dinheiro, Antônio consegue estruturar sua chácara, investir na produção, dar estabilidade à família.

Enquanto isso, o assentamento avançava.

A chegada da energia elétrica é outro marco histórico.

A rede vem da Someco, passando pela região da Figueira, cruzando o futuro perímetro urbano.

“A cidade ainda não existia.”

Mais uma vez, o trabalho pesado recai sobre os assentados.

“Nós que fomos furar os buracos pros postes.”

Não havia máquina.
Não havia trator.
Era na cavadeira, no braço, na persistência.

Antônio passa três dias ajudando nessa tarefa.

“Não era fácil, mas precisava.”

Cada poste fincado significava luz.
Significava rádio ligado à noite.
Significava menos medo.

No fim de agosto de 1986, o loteamento finalmente fica pronto.

“Ficamos aguardando só o sorteio.”

A ansiedade toma conta do assentamento. A terra já está marcada. Os números existem. Falta apenas o momento mais simbólico de todos: descobrir qual pedaço de chão será seu.

Mas até esse dia chegar, a vida segue em suspensão.

As famílias continuam plantando, trabalhando fora, cuidando umas das outras.

A promessa está cada vez mais perto.

E o destino, prestes a ser revelado.

O assentamento já respirava expectativa.

Era início de novembro de 1986. A terra estava demarcada. Os marcos fincados. As picadas abertas. As roças recém-plantadas. Faltava apenas um gesto final para transformar esperança em pertencimento.

O sorteio.

“Teve uma reunião grande. Grande mesmo.”

O local escolhido carrega um simbolismo quase esquecido pelo tempo: o antigo aeroporto, no final da linha da porteira. Uma pista de chão batido, onde antes pousavam pequenos aviões, agora tomada por gente a pé, de carroça, de bicicleta, em caminhões improvisados.

Famílias inteiras caminham quilômetros.

Homens de chapéu.
Mulheres com crianças no colo.
Idosos apoiados em bengalas.

Todos sabiam: aquele dia ficaria para a história.

Autoridades chegam. Técnicos do INCRA. Representantes do governo. Lideranças do movimento. E, pela primeira vez, um nome de peso.

“Veio o Marcos Freire.”

Marcos Freire, então ministro da Reforma Agrária, comparece pessoalmente. É a única vez que pisaria naquele chão que ajudou a transformar.

Sua presença dava legitimidade ao processo. Garantia que não se tratava de uma promessa vazia.

“O sorteio ficou marcado pro dia 5 de novembro de 1986.”

A data passa a ser um marco fundador de Novo Horizonte do Sul.

O sorteio não é aleatório. Existe método. Existe critério.

“Era pela ordem alfabética.”

Os nomes estavam organizados em listas oficiais do INCRA. Um a um, os assentados eram chamados para retirar o número do lote de dentro de um bisaco — um saco de pano grosso, simples, mas carregado de simbolismo.

O primeiro nome da lista começa com a letra A.

Antônio Luiz Agostinho.

“Eu fui o primeiro brasiguaio a enfiar a mão no bisaco.”

O silêncio se impõe. O gesto é simples: mão dentro do saco, papel retirado, número revelado.

“Tirei o lote 88.”

Mas algo não fecha.

“Era a chácara do Pai do Zé Banana.”

Antônio percebe o erro. Não discute. Não insiste. Devolve o papel.

“Devolvi.”

Coloca a mão novamente no bisaco.

“Aí tirei a minha chácara. 735.”

O número passa a ser mais do que uma identificação. Vira endereço. Vira história. Vira herança.

“735 era o nome do meu lote.”

O sorteio não termina em um dia.

“Ficaram dois dias sorteando.”

Grupo por grupo, região por região, cada família descobrindo seu destino. Choros. Abraços. Silêncios longos. Alguns comemoram. Outros se decepcionam. Mas todos sabem: agora a terra é real.

Antônio, porém, não acompanha tudo.

No mesmo dia, uma notícia chega de longe.

“Meu irmão mandou avisar: meu pai estava internado em São Paulo.”

A escolha precisa ser rápida.

“Fiz meu sorteio e já saí.”

Ele parte quase imediatamente, pegando carona com a equipe da TV Morena, afiliada da Rede Globo, até Ivinhema. De lá, segue de ônibus para São Paulo.

O sorteio continua.
A história avança.
Mas Antônio vive, naquele momento, outro tipo de espera.

Após visitar o pai, Antônio retorna ao assentamento.

Agora, a pergunta é outra:

“Vamos ver onde é o meu lote.”

Ele segue para a região de Santa Rosa. Não há estrada. Apenas caminhos tortuosos, marcados por caminhões de tora que retiravam madeira da região.

“Era no meio de uma quizassa.”

A mata fechada ainda domina o cenário. No meio dela, uma picada estreita corta a terra.

“Tinha uma vara enfiada com uma plaquinha.”

O número.

“735.”

É ali.

Aquele pedaço de chão, antes invisível, agora o espera.

A estrada passa pelo meio da chácara. Não há casa. Não há cerca. Não há nada além de terra bruta e silêncio.

Mas, para quem passou anos sem chão, aquilo era tudo.

A mudança do acampamento para a chácara é feita com ajuda de outros brasiguaios.

“Quem trouxe minha mudança foi o Adão Teixeira.”

Adão, também brasiguaio, possuía um trator Valmet, uma carreta e uma colhedeira. Ele transporta não apenas móveis e ferramentas, mas o início de uma nova vida.

“A mulher dele está lá até hoje.”

O milho plantado ainda no acampamento do Guavirá é colhido e beneficiado com a ajuda de Adão.

“Ele bateu tudo na máquina.”

O milho é levado para a casa do Pedro Cacique. Mas surge um novo problema.

“Não tinha pra quem vender.”

Antônio vai até Ivinhema, tentando negociar. A economia local ainda não absorvia aquela produção. Era mais um obstáculo.

Mas já não era mais desespero.

Agora havia chão.
Havia casa por construir.
Havia futuro para plantar.

E, sobretudo, havia uma comunidade inteira nascida da luta.

No começo, ninguém falava em cidade.

Falava-se em roça.
Em chácara.
Em plantar, colher e sobreviver.

Mas a terra, quando junta gente, cria movimento. E o movimento cria necessidade.

“A gente sabia que aqui ia nascer uma cidade.”

Não havia prédios. Não havia prefeitura. Não havia sequer um nome oficial. Mas havia algo essencial: pessoas fixadas, famílias que não iriam mais embora.

O SURGIMENTO DO NÚCLEO URBANO

A área onde hoje está Novo Horizonte do Sul já era comentada entre os assentados antes mesmo do sorteio.

“A gente sabia que essa região aqui era pra cidade.”

O ponto era estratégico: cruzamento natural de caminhos, passagem da rede de energia, proximidade entre os grupos. Aos poucos, começaram a surgir os primeiros barracos fixos fora das chácaras.

Não eram casas ainda.
Eram sinais.

Um comércio improvisado aqui.
Uma venda ali.
Uma escolinha funcionando em madeira.

A cidade nascia sem decreto, sem placa, sem cerimônia.

Nascia porque precisava nascer.

Antes de existir poder público local, existia organização comunitária.

Assentados se reuniam para decidir:
– onde ficaria a escola
– quem ensinaria
– como dividir tarefas

A saúde ainda era precária, mas já melhor organizada. O posto improvisado continuava atendendo. As irmãs seguiam como referência. A polícia ainda fazia papel de ambulância.

“Tudo era cooperativo.”

A lógica era simples: se não fosse coletivo, não funcionaria.

PASTEL, A LIDERANÇA QUE NÃO SE IMPÔS

Antônio Luiz Augustinho não surge como líder por aclamação imediata. Ele surge como referência pelo trabalho constante.

Ele já tinha sido:
– transportador
– responsável pela pastoral da saúde
– organizador de trabalhadores
– articulador entre assentamento e cidade

Seu nome circulava naturalmente.

“Eu sempre gostei de prestar atenção nas coisas.”

Essa atenção o colocava em reuniões, debates, decisões importantes. Quando surgem as primeiras discussões sobre emancipação política, ele já está lá.

Novo Horizonte do Sul ainda era distrito. Dependia administrativamente de outro município. Isso significava demora, descaso, distância.

A comunidade começa a reivindicar autonomia.

Não era ambição.
Era necessidade.

Sem município:
– não havia orçamento próprio
– não havia gestão direta
– não havia prioridade

As reuniões se intensificam. Lideranças surgem. Pastel é empurrado para o centro das decisões.

“Eu nunca fui de correr da responsabilidade.”

Quando o nome dele aparece como possibilidade de candidato, não é surpresa. É consequência.

A campanha não tem marketing. Não tem santinho sofisticado. Não tem promessa vazia.

Tem conversa olho no olho.
Tem histórico de luta.
Tem confiança construída na poeira da estrada.

Antônio Luiz Augustinho, o Pastel, é eleito primeiro prefeito de Novo Horizonte do Sul – MS.

Não como símbolo apenas, mas como representante direto da história dos brasiguaios.

“A minha história se mistura com a história da cidade.”

E se mistura mesmo.

A cidade que ele administra nasceu do mesmo barro que sujou seus pés. Das mesmas picadas que ele ajudou a abrir. Dos mesmos barracos que ele habitou.

Novo Horizonte do Sul não é apenas um município. É resultado direto de um dos maiores movimentos de retorno migratório da história recente do Brasil.

Os brasiguaios, antes vistos como estrangeiros, tornaram-se pioneiros.

Construíram:
– estradas
– escolas
– lavouras
– instituições
– identidade

“Nós somos o primeiro assentamento da Nova República.”

A frase de Antônio não é vaidade. É registro histórico.

O governo Sarney inicia a reforma agrária democrática ali. Novo Horizonte do Sul se torna símbolo de um Brasil que tentava se reconciliar com sua dívida social.

Pastel e seu Filho Leandro

Ao longo da vida, Antônio também enfrentou perdas profundas. A morte do filho durante a pandemia de Covid-19 é uma delas.

“Meu filho Leandro faleceu aqui, em 2021.” Mas sigo com minhas filhas, Luciene e Larissa.

A dor pessoal se soma à memória coletiva. Porque a história de um território não é feita só de conquistas, mas também de ausências.

Ainda assim, o legado permanece.

Na terra que ele ajudou a conquistar.
Na cidade que ajudou a fundar.
No nome que ficou registrado na história política local.

A câmera volta para o rosto de Antônio Luiz Augustinho.

O tempo marcou sua pele.
Mas não apagou a memória.

O documentário não termina com aplausos. Termina com silêncio. Com imagens da terra. Das ruas da cidade. Dos assentamentos que ainda produzem.

A narração final ecoa:

“A história dos brasiguaios não é apenas a história de quem buscou terra. É a história de quem buscou pertencimento. Em Novo Horizonte do Sul, essa busca virou chão, virou cidade e virou futuro.”

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