“Muitas Vozes, Uma Só História” – Uma série documental do Portal KF News
A história do Brasil não está apenas nos livros, nos palácios ou nas capitais.
Ela também está escrita nas mãos calejadas, no silêncio das madrugadas, no rangido de um barraco de lona batido pelo vento.
Existe um povo que atravessou fronteiras não por ambição, mas por necessidade.
Um povo que saiu do Brasil em busca de dignidade, encontrou trabalho duro em terras estrangeiras e, anos depois, voltou para lutar por um pedaço de chão que pudesse, enfim, chamar de seu.
Eles ficaram conhecidos como brasiguaios.
Homens e mulheres que viveram entre dois países, duas línguas, duas esperanças — e uma única certeza: a terra é vida.
É com esse olhar que o Portal KF News apresenta esta série documental especial, construída a partir do relato de Ordeli Barbosa Ribeiro e de sua esposa Cícera Rocha Ribeiro, dois pioneiros cuja trajetória se confunde com a própria formação do município de Novo Horizonte do Sul, quando ainda nem município era.
Esta não é apenas a história de um casal.
É a história de centenas de famílias.
É a história de um povo organizado pela fé, pela coragem e pela necessidade de sobreviver.
A câmera imaginária se abre lentamente sobre o interior do Paraná.
Estradas de terra, lavouras simples, casas modestas. É ali que tudo começa.
Sentado em sua casa, já com a voz carregada de memória, o homem se apresenta:
“Eu sou Ordeli Barbosa Ribeiro. Nasci no dia 5 de outubro de 1959.”
Ao lado dele, com a serenidade de quem também carregou o mundo nos ombros, está sua esposa:
“Cícera Rocha Ribeiro. Nasci em 3 de agosto de 1959.”
Ambos paranaenses.
Ambos filhos de famílias numerosas.
Ambos criados em um Brasil rural, onde o trabalho começava cedo e a esperança era ensinada no exemplo.
Ordeli vem de uma família de nove irmãos — três homens e seis mulheres.
Todos vivos. Um detalhe que ele faz questão de dizer com gratidão:
“Todos vivos, graças a Deus.”
Seus pais, embora morassem no Paraná, carregavam outra migração no sangue: vieram do Espírito Santo, em 1955, como tantos outros brasileiros que atravessaram estados em busca de sobrevivência.
Cícera também conhece a dor e a união familiar.
São quatro irmãos. Uma perda. Uma ausência que acompanha, silenciosa.
O estudo foi curto.
Ordeli chegou ao quinto ano.
Cícera também.
Mas a escola da vida, essa foi longa, dura e diária.
Em 1977, eles se casam. Jovens. Cheios de planos.
O Brasil vivia tempos difíceis. O campo já não segurava todos. São Paulo chamava muitos jovens.
Mas Ordeli escolhe outro caminho.
Em 1978, um ano depois do casamento, surge a possibilidade que mudaria tudo: o Paraguai.
Ordeli Barbosa Ribeiro e Cícera Rocha Ribeiro se casaram em 1977, no Paraná. Ambos jovens, com pouca escolaridade formal, mas com forte vínculo com o trabalho rural. Naquele período, o interior do Brasil vivia um processo acelerado de êxodo: muitos jovens deixavam o campo rumo às grandes cidades, principalmente São Paulo, em busca de emprego e melhores condições de vida.
Ordeli relata que também pensou em seguir esse caminho. No entanto, o casamento mudou seus planos. A ida para São Paulo, sem estrutura e sem garantia de trabalho, passou a parecer arriscada demais para quem já começava a formar uma família.
Foi nesse contexto que surgiu a alternativa do Paraguai.
O sogro de Ordeli havia se mudado para o país vizinho, onde havia oferta de terras para cultivo, ainda que de forma arrendada. A promessa era simples: trabalhar por um ou dois anos, juntar algum dinheiro e depois seguir outro rumo — talvez São Paulo, talvez retornar ao Brasil em melhores condições.
Em 1978, um ano após o casamento, Ordeli e Cícera deixam o Paraná e atravessam a fronteira. O que parecia uma decisão provisória acabaria se transformando em quase uma década de vida fora do país.
Ao chegar ao Paraguai, Ordeli encontrou uma realidade contraditória. De um lado, terras férteis, produtivas, próprias para o cultivo de soja, milho, arroz e algodão. De outro, uma rotina de trabalho extremamente pesada, feita quase exclusivamente de forma manual.
Não havia trator.
Não havia cavalo.
Não havia mecanização.
O preparo da terra era feito no braço. A roçada, o carpir, o plantio e a colheita exigiam esforço contínuo. Ainda assim, a terra respondia bem. A produção era boa, e isso dava ânimo para continuar.
A terra não era própria. Era arrendada. O proprietário, um brasileiro da região de Palotina, cobrava cerca de 5% da produção como renda. Em anos ruins, quando não havia como pagar, muitas vezes a cobrança era relevada.
Durante cerca de três anos, Ordeli viveu nessa condição. Depois, conseguiu comprar uma pequena chácara, de aproximadamente um alqueire, na região de Puente Quirá, próxima às localidades de Paloma e Puente Quirá. Apesar da proximidade relativa, a realidade era de isolamento.
Sem meios de transporte, a família se deslocava a pé para fazer compras, participar de eventos ou resolver qualquer necessidade. O trajeto podia chegar a seis quilômetros. Eventualmente, conseguiam carona. Em muitos casos, havia apenas carroças.
A moradia era simples, semelhante a um acampamento permanente: casas de madeira rachada, cobertas com tábuas, muitas vezes sem telhas adequadas. Não havia energia elétrica, água encanada ou infraestrutura básica.
Mesmo assim, Ordeli afirma que a saúde da família era boa, as relações com os vizinhos eram positivas e o trabalho, embora pesado, trazia a satisfação de produzir.
Durante o período no Paraguai, nasceram os três primeiros filhos do casal:
- Ângela Rocha Ribeiro (1979)
- Adalto Rocha Ribeiro
- Arlete Rocha Ribeiro
O nascimento da primeira filha, em 1979, marcou um ponto de reflexão. A família crescia, e com ela aumentava a responsabilidade. A ideia inicial de permanecer pouco tempo no Paraguai começava a se prolongar além do planejado.
Com o passar dos anos, uma nova preocupação surgiu: a educação dos filhos.
As escolas paraguaias ensinavam em língua espanhola. Embora Ordeli reconheça que o ensino não era ruim, o casal desejava que os filhos fossem educados no sistema brasileiro, mantendo a língua, a cultura e a identidade do país de origem.
Ao mesmo tempo, a situação econômica começava a apertar. Apesar das boas colheitas, os preços pagos pelos produtos agrícolas eram baixos. O esforço nem sempre se convertia em melhoria de vida.
Em 1985, quando a família já esperava o quarto filho, Amos Rocha Ribeiro, a ideia de retornar ao Brasil começou a ganhar força. Foi nesse momento que surgiram as primeiras notícias sobre a possibilidade de acesso à terra no Mato Grosso do Sul.
A promessa era vaga, pouco clara, mas suficiente para reacender uma esperança antiga: voltar para o Brasil e conquistar um pedaço de terra próprio.
Por volta de 1984 e início de 1985, começaram a circular entre os brasileiros que viviam no Paraguai informações sobre uma possível organização para retorno ao Brasil. Falava-se em terras disponíveis no então estado de Mato Grosso do Sul, mas sem detalhes concretos, sem garantias e sem prazos definidos.
Ordeli relata que não havia reuniões formais nem encontros amplos. A comunicação acontecia de forma discreta, quase silenciosa. As informações eram repassadas em conversas rápidas, muitas vezes de maneira indireta, para evitar problemas tanto com autoridades paraguaias quanto com outros brasileiros que possuíam melhores condições financeiras e poderiam se opor à saída em massa.
Um dos pontos de referência nesse processo foi José Yamashita, agricultor conhecido na região da Figueira. Yamashita trabalhava em uma fazenda no Paraguai, possivelmente chamada Fazenda São Luís. Apesar de falar pouco, era procurado por diversas famílias em busca de orientação.
O que se sabia, de fato, era apenas que haveria uma organização para trazer os brasileiros de volta e que um acampamento seria montado no Brasil como etapa inicial do processo. Para muitas famílias, incluindo a de Ordeli e Cícera, essa era uma decisão arriscada, pois significava abandonar o pouco que haviam construído no Paraguai sem qualquer garantia concreta de sucesso.
A saída do Paraguai ocorreu de forma planejada, mas extremamente discreta. Havia receio de represálias, tanto por parte de autoridades paraguaias quanto de proprietários de terra. Por isso, a orientação era clara: não divulgar a viagem.
Nem mesmo brasileiros que viviam em melhores condições eram informados. O medo era que qualquer reação contrária pudesse impedir ou dificultar o retorno coletivo.

A data definida foi 14 de junho de 1985. O plano previa que as famílias chegassem de madrugada ao local combinado em Mundo Novo, para que, ao amanhecer, o acampamento já estivesse formado.
Ordeli não chegou no dia 14. Ele chegou dois dias depois, no dia 16 de junho de 1985, uma segunda-feira. Mesmo assim, já encontrou o acampamento em plena formação, com centenas de famílias montando barracos e se organizando no pátio próximo ao estádio municipal.
A maioria das famílias saiu do Paraguai praticamente sem bens. Muitos venderam pequenas roças, animais, sementes e utensílios domésticos. Outros doaram o que não conseguiam vender. Não havia móveis, eletrodomésticos ou grandes pertences.
Segundo Ordeli, a saída foi facilitada justamente por isso:
“Foi fácil ir embora porque não tinha nada para levar. Só a coragem.”
Quando as famílias chegaram a Mundo Novo, o cenário era impactante. Um grande pátio aberto, próximo ao estádio, foi rapidamente ocupado por barracos improvisados feitos de madeira, lona, ripas e barro.
Em poucos dias, o local se transformou em um grande acampamento. Famílias chegavam continuamente — durante o dia, à noite, nos fins de semana. Havia gente espalhada pela cidade: alguns ficaram em casas de parentes, outros às margens de rios, em terrenos improvisados.
Estima-se que, em determinado momento, o acampamento tenha reunido mais de 1.100 famílias cadastradas, embora o número de barracos fosse menor, já que muitas vezes mais de uma família dividia o mesmo espaço.
A chegada em massa chamou a atenção da população local. Moradores saíam de casa para observar a movimentação. O som constante de martelos, o transporte de madeira e a construção dos barracos davam ao local uma aparência de obra coletiva permanente.
Um caminhão, cuja origem Ordeli não soube precisar, passou a auxiliar no transporte de madeira e lenha. O motorista buscava material em áreas de mata e despejava no acampamento, permitindo que as famílias coletassem lenha para cozinhar.
Nos primeiros dias, a situação alimentar era crítica. Muitos chegaram sem qualquer provisão, confiando na informação de que a alimentação seria organizada rapidamente. No entanto, a ajuda demorou cerca de 15 dias para começar a chegar.
Nesse período, houve casos de famílias passando fome.

Diante da urgência, os próprios acampados se organizaram. Foram criados 11 grupos, cada um com dois coordenadores responsáveis pela alimentação. Ordeli passou a integrar esse grupo.
Uma das estratégias adotadas foi a mobilização da cidade. De madrugada, os coordenadores preparavam panfletos e, ao amanhecer, grupos eram distribuídos pelas ruas de Mundo Novo e até de municípios vizinhos, como Eldorado.
O pedido era direto e claro: havia famílias acampadas passando necessidade, e qualquer tipo de ajuda — alimentos, leite, mantimentos — seria bem-vinda.
A resposta da população foi significativa. Produtores rurais passaram a levar leite em tambores, distribuído diretamente no acampamento. Caminhonetes chegavam carregadas com alimentos básicos. Formavam-se filas organizadas para a distribuição.
A solidariedade local foi decisiva para a sobrevivência do acampamento até que o apoio institucional começasse a funcionar.
Com o crescimento acelerado do acampamento em Mundo Novo, tornou-se evidente que a situação ultrapassava a capacidade de resposta espontânea da comunidade local. A organização informal já não era suficiente para atender demandas básicas como alimentação, saúde, abrigo e segurança.
Foi nesse contexto que entrou em cena a Pastoral da Terra, vinculada à Diocese de Dourados, então sob responsabilidade do bispo Dom Teodardo Leitz. A Pastoral atuava como mediadora entre os acampados e o poder público, além de fornecer apoio logístico, político e humanitário.
Equipes passaram a atuar diretamente no acampamento, ajudando na organização interna, no levantamento de necessidades e no encaminhamento de solicitações junto aos órgãos estaduais e federais. A presença da Pastoral conferiu legitimidade ao movimento e ajudou a evitar conflitos maiores.
Segundo Ordeli, foi a partir dessa articulação que o governo do Estado e a Defesa Civil passaram a agir de forma mais estruturada, reconhecendo oficialmente a existência do acampamento e a urgência da situação.
Com o reconhecimento oficial do acampamento, o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) enviou equipes a Mundo Novo para realizar o cadastro das famílias. O objetivo era levantar o número real de acampados e definir quem estaria apto a participar de um eventual assentamento.
O cadastro trouxe esperança, mas também tensão.
Para ser aprovado, o acampado precisava cumprir critérios rígidos:
- não possuir nenhum imóvel registrado em seu nome;
- não ter sido anteriormente beneficiado com terras da reforma agrária;
- preferencialmente ter família constituída, com cônjuge e/ou filhos.
Esses critérios resultaram na exclusão de diversas pessoas. Algumas haviam tido terra anteriormente e a perderam. Outras possuíam pequenos imóveis. Houve também casos de pessoas solteiras que não se enquadraram nas exigências.
Embora o acampamento tenha chegado a registrar cerca de 1.100 famílias, o número final de cadastros aprovados ficou abaixo de 800, com registros que variavam entre 700 e 635 famílias, segundo a memória de Ordeli.
A exclusão gerou insegurança e frustração. Muitas famílias ficaram sem saber qual seria seu destino. Ainda assim, parte dessas pessoas decidiu acompanhar o grupo, apostando em oportunidades futuras ou na possibilidade de trabalhar nas novas áreas.
Paralelamente ao cadastro, foram criadas equipes específicas para negociação de terras. Uma dessas lideranças foi José Faria leal, cunhado de Ordeli, figura amplamente reconhecida em Novo Horizonte do Sul e falecido em 2009.
José Faria passou a atuar diretamente nas negociações com o governo federal, incluindo viagens frequentes a Brasília, onde buscava recursos, pressionava por soluções e intermediava contatos políticos.
Em uma das ocasiões, permaneceu 27 dias consecutivos em Brasília, sem retornar ao acampamento. O apoio político veio, entre outros, do então deputado Sérgio Cruz, que oferecia suporte logístico aos representantes dos acampados, disponibilizando local para estadia, alimentação e deslocamento.
As negociações deixavam claro um ponto fundamental:
não houve invasão de terras.
Os acampados aguardaram a definição oficial do governo, que precisaria negociar a compra de uma fazenda, com concordância do proprietário.
Esse processo foi lento, marcado por incertezas, avanços e recuos. Mas, ao final, o governo definiu a área que seria destinada às famílias: uma fazenda localizada na região que viria a se tornar Novo Horizonte do Sul.
Após a definição da área, uma comissão formada por representantes do acampamento foi enviada para conhecer a fazenda. O grupo era composto por cerca de 15 a 20 pessoas, escolhidas entre os diversos grupos organizados em Mundo Novo.
Eles percorreram a área, avaliaram o solo, observaram a disponibilidade de água e mapearam os locais mais adequados para a instalação inicial dos barracos. A decisão foi de dividir o acampamento, evitando a concentração excessiva de famílias em um único ponto, como havia ocorrido em Mundo Novo.
Somente depois dessa visita técnica é que foi organizada a transferência das famílias.
O governo disponibilizou carretas para transportar as mudanças. No entanto, quase ninguém tinha móveis ou pertences significativos. A maioria trazia apenas pedaços de madeira, lonas, utensílios simples, fogões improvisados e roupas.
Ordeli recorda que muitos não tinham sequer isso.

A chegada a Novo Horizonte do Sul marcou o início de uma nova etapa. Ainda não havia títulos de terra, infraestrutura ou garantias definitivas. Mas, pela primeira vez, havia um território definido e a perspectiva concreta de permanência.
Era o começo de um novo capítulo — não apenas na vida das famílias brasiguaias, mas na história de uma região que ainda estava em formação.
A chegada das famílias à área destinada ao assentamento, em Novo Horizonte do Sul, não significou o fim das dificuldades. Ao contrário, marcou o início de uma fase ainda mais exigente. Não havia casas, estradas, poços, energia elétrica ou qualquer tipo de infraestrutura básica.
Os primeiros meses foram vividos em barracos improvisados, semelhantes aos do acampamento em Mundo Novo. A diferença era que, agora, o espaço era definitivo, mesmo sem documentação formal.
O trabalho era intenso e constante. Havia necessidade de abrir clareiras, roçar o mato, retirar madeira, cavar poços e construir abrigos minimamente seguros para as famílias. Muitos sobreviviam de trabalhos temporários: produção de carvão, roçadas para terceiros, derrubada de mato e serviços braçais.
Segundo Ordeli, não faltava serviço, mas frequentemente faltava dinheiro para pagar. A economia era baseada na troca, na ajuda mútua e na solidariedade entre vizinhos.
Mesmo assim, a permanência na terra fortalecia o sentimento coletivo. Havia a consciência de que aquele esforço não era temporário, mas a construção de um futuro.
Nem todos os que chegaram a Novo Horizonte do Sul permaneceram. Muitas famílias que não haviam sido aprovadas no cadastro do INCRA acompanharam o grupo inicialmente, mas, com o tempo, buscaram outras alternativas.
Alguns seguiram para novos acampamentos organizados posteriormente, como o de Indaiá, que resultou no assentamento de Itaquiraí, em 1989. Outros migraram para diferentes regiões do estado e do país.
Esse movimento provocou um esvaziamento gradual de áreas internas do assentamento. Ao mesmo tempo, abriu espaço para que filhos de assentados e outras famílias se organizassem em novas lutas por terra.
Durante esse período, falava-se que Novo Horizonte do Sul chegou a abrigar cerca de 11 mil pessoas, considerando assentados, trabalhadores temporários e famílias em trânsito. A região vivia intensa circulação de gente, mercadorias e trabalho.
Com o passar dos anos, a ocupação da terra se consolidou. As famílias passaram a produzir, a construir moradias mais estáveis e a organizar serviços comunitários. A presença constante de moradores impulsionou o surgimento de comércio, escolas, igrejas e estruturas administrativas.
Novo Horizonte do Sul, que à época da chegada dos brasiguaios ainda não era município, começou a ganhar identidade própria. O crescimento populacional e econômico fortaleceu o movimento pela emancipação política.
A história do município passou, então, a se confundir com a história dos assentados. Muitos dos pioneiros da ocupação da terra tornaram-se referências locais, participando da vida comunitária e do desenvolvimento regional.
Ordeli e Cícera estavam entre essas famílias que permaneceram, criaram os filhos e ajudaram a transformar um território rural em um município estruturado.
Ao longo dos anos, a família cresceu. Além dos três filhos nascidos no Paraguai, vieram outros:
- Amos Rocha Ribeiro (nascido em dezembro de 1985, já durante o período de acampamento)
- André Rocha Ribeiro
- Aline Rocha Ribeiro, a filha caçula
Ao todo, seis filhos: três homens e três mulheres.
A trajetória da família reflete a trajetória dos brasiguaios: migração, trabalho duro, incerteza, organização coletiva e permanência. Mais do que conquistar a terra, o que se construiu foi um sentimento de pertencimento.
A memória desse processo permanece viva nos relatos, nos nomes, nos lugares e nas histórias contadas de geração em geração.
O termo “brasiguaio” surgiu para identificar brasileiros que migraram para o Paraguai, principalmente a partir das décadas de 1970 e 1980, em busca de terra e trabalho, e que, anos depois, retornaram ao Brasil em condições precárias, organizando-se coletivamente para reivindicar acesso à terra.
No caso de Ordeli Barbosa Ribeiro, Cícera Rocha Ribeiro e das centenas de famílias que retornaram em 1985, o termo não representa apenas uma condição migratória, mas uma identidade social construída a partir da resistência.
Os brasiguaios viveram entre dois países, sem pertencer plenamente a nenhum deles. No Paraguai, eram estrangeiros. Ao retornar ao Brasil, encontraram dificuldades para serem reconhecidos como cidadãos com direitos plenos.
Essa condição gerou vulnerabilidade, mas também fortaleceu a organização coletiva. Foi a partir dessa identidade comum que as famílias se uniram, compartilharam recursos, dividiram tarefas e enfrentaram longos períodos de espera e incerteza.
O movimento que levou à formação do acampamento de Mundo Novo e, posteriormente, ao assentamento em Novo Horizonte do Sul, deve ser compreendido como parte do processo histórico da reforma agrária no Brasil.
Diferentemente de narrativas que associam ocupações rurais à desordem, o relato de Ordeli evidencia um movimento organizado, negociado e mediado institucionalmente, com participação da Igreja, da Pastoral da Terra, do INCRA, da Defesa Civil e de representantes políticos.
Não houve invasão de propriedades. Houve espera, negociação e resistência pacífica.
A luta não se limitou à obtenção da terra. Incluiu a busca por alimentação, atendimento médico, educação, infraestrutura e reconhecimento social. Cada etapa exigiu articulação, liderança e capacidade de organização coletiva.
Novo Horizonte do Sul é resultado direto desse processo.

As famílias que permaneceram no assentamento foram responsáveis por abrir estradas, construir casas, organizar escolas, igrejas e associações comunitárias. O trabalho iniciado sob lona e madeira improvisada se transformou, ao longo dos anos, em estruturas permanentes.
Ordeli e Cícera fazem parte desse grupo de pioneiros cuja trajetória se confunde com a história do município. Sua experiência revela como decisões individuais, quando compartilhadas coletivamente, podem gerar transformações duradouras.
O legado deixado não é apenas material. É também social, cultural e histórico.
Os filhos cresceram, formaram suas próprias famílias e seguiram caminhos diversos, mas carregam a memória de uma luta que garantiu dignidade às gerações seguintes.
Hoje, ao relembrar o passado, Ordeli Barbosa Ribeiro não fala apenas de dificuldades. Ele fala de organização, de fé, de solidariedade e de coragem.
A saída do Paraná.
Os anos no Paraguai.
O retorno silencioso.
O acampamento em Mundo Novo.
A fome enfrentada coletivamente.
A espera pela terra.
A chegada a Novo Horizonte do Sul.
Cada etapa compõe um capítulo da história de um município e de um grupo social que ajudou a moldar o interior do Mato Grosso do Sul.
Registrar esse depoimento é mais do que preservar uma memória individual. É documentar um processo histórico que explica a origem de Novo Horizonte do Sul e reconhece o papel dos brasiguaios na construção do território.
A história de Ordeli e Cícera permanece como testemunho de um tempo em que a terra não era apenas um bem, mas uma promessa — conquistada com trabalho, organização e resistência.
Foram eles que deram forma, rosto e alma a Novo Horizonte do Sul.
Hoje, quando se olha para trás, não se vê apenas sofrimento.
Vê-se coragem.
Vê-se fé.
Vê-se história.
E, sobretudo, vê-se a certeza de que este município nasceu do chão, do suor e da esperança de famílias como a de Ordeli Barbosa Ribeiro e Cícera Rocha Ribeiro.
Uma história que não pode — e não deve — ser esquecida.
KF News – Jornalismo que preserva a memória, valoriza pessoas e registra a história viva do povo de Novo Horizonte do Sul.

Carvoeira do Zé Faria


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