Data e Hora:
11 fevereiro 2026, 14:59 PM

Brasiguaios: a história de Miguel e Raquel, raízes que cruzaram fronteiras

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A história de Novo Horizonte do Sul (MS) não está apenas em documentos oficiais, mapas ou decretos. Ela vive na memória de quem caminhou longas estradas, atravessou fronteiras, dormiu em barracos de lona, sentiu fome, medo e incertezas, mas nunca desistiu do sonho de ter um pedaço de terra para chamar de seu.

É com esse olhar que o Portal KF News apresenta esta série documentária especial sobre os brasiguaios, a partir do relato de Miguel José Pereira e sua esposa Raquel Rodrigues Pereira, dois pioneiros cuja trajetória se confunde com a própria formação do município.

Miguel e Raquel são naturais de Jucuruçu, no interior da Bahia. Vieram de famílias simples, numerosas, marcadas pelo trabalho duro e pela ausência de oportunidades.

Raquel estudou até a quarta série e Miguel não frequentou a escola: “Eu sei assinar o nome, mas estudar eu não estudei. O pai não deixou. Era só trabalhar.

Desde cedo, a vida ensinou que sobreviver vinha antes de qualquer sonho. A infância foi curta. O trabalho veio cedo.

Raquel saiu da Bahia ainda adolescente, com 16 anos. Miguel deixou sua terra natal em 7 de setembro de 1971, numa viagem longa, feita de ônibus e trem, passando por São Paulo e Maringá até chegar a Palotina (PR).

Em Palotina, Miguel trabalhou cerca de três anos na roça, sempre em terras arrendadas. A vida era instável. Quando o contrato acabava, era preciso recomeçar tudo outra vez. Foi ali que o casal se formou. Foi ali que começaram a criar família. Mas a terra nunca era deles: “No Paraná tinha terra… mas era arrendada.”

Dia da chegada ao Paraguai

Quando o arrendamento venceu, surgiu a alternativa que marcou uma geração inteira de agricultores brasileiros. Por volta de 1974, Miguel e Raquel atravessaram a fronteira e passaram a viver como brasiguaios. No Paraguai, ficaram cerca de 11 anos. Trabalhavam na roça, plantando algodão, soja, milho, arroz. A produção garantia a sobrevivência, mas não a tranquilidade: “Dava pra viver. Mas não era a nossa terra.”

A lei era dura. O medo era constante. Por qualquer motivo, a prisão era uma ameaça real: “Por pouca coisa a pessoa já ia presa. A gente era massacrado.”

Os filhos nasceram no Brasil. Sempre que Raquel engravidava, voltava ao Paraná para dar à luz na casa de parentes. O mais velho, Roberto, tinha apenas 27 dias de vida quando o casal entrou no Paraguai. Quando saíram, ele já tinha 11 anos. Também nasceram Ademir e, mais tarde, Matheus. Um filho faleceu ainda pequeno. Não havia acesso à saúde, nem escola; “Não tinha médico, não tinha escola pra nós.”

Ser imigrante significava viver em alerta. Os paraguaios, muitas vezes, tratavam bem — e, na mesma hora, tratavam mal. “Falavam da gente e a gente nem sabia.”

O desejo de voltar ao Brasil nunca deixou de existir. A decisão de sair do Paraguai não foi isolada, foi coletiva e organizada.

Centenas de brasileiros viviam naquela mesma condição. Lideranças começaram a se formar. O pai de Raquel, Clemente Rodrigues, foi um desses líderes, ao lado de nomes como Zé Faria, Seu Expedito, Seu Avelino, Zé Frazão, entre outros: “Meu pai era líder. Eles reuniam as famílias.”

O sonho era claro: voltar ao Brasil e conquistar terra para trabalhar. Em junho de 1985, cerca de 766 famílias, divididas em 11 acampamentos, deixaram o Paraguai e chegaram a Mundo Novo (MS). Miguel e Raquel ficaram acampados dentro da cidade, próximos à prefeitura, em barracos de lona, “fomos bem acolhidos, graças a Deus.”

A viagem foi simples, sem confronto. Caminhões lotados, ônibus cheios, poucos pertences, “colocamos o que tinha no caminhão e viemos.”

Após seis meses, o INCRA desapropriou a fazenda onde hoje é Novo Horizonte do Sul. A transferência aconteceu sob escolta policial, porque o antigo fazendeiro resistia à entrega da terra.

Quando chegaram, não havia nada pronto, era mato fechado. As famílias foram organizadas perto de uma antiga represa, o único lugar com água pois ninguém podia furar poço, “A gente acampava onde tinha água pra sobreviver.”

Os grupos receberam nomes que lembravam cidades do Paraguai: Carapã, Maracaju, Figueira, Guadalupi, Santa Rosa, Porto Guira, Linha Viva e outras.

A saúde era precária. Um pequeno posto improvisado distribuía quase sempre o mesmo remédio: dipirona – “Qualquer dor era dipirona.” O responsável pelo atendimento ganhou o apelido que atravessou décadas: Dipirona, também um brasiguaio. Casos graves eram levados para Ivinhema, Dourados ou outras cidades, em viagens longas, feitas em caminhões adaptados com bancos de madeira.

A educação começou em barracões de lona, dentro dos próprios acampamentos, vieram professores de Ivinhema e Guaíra, como Valdivino, Osmar, Ademir de Oliveira, Vinícius, Dona Almerinda entre outros, “foi muita coragem dar aula naquele barraco pra tanta criança.” As crianças iam a pé, enfrentando estradas de terra, sol e poeira.

Galo amarado pelo pé para não fugir

O galo amarrado pelo pé: a riqueza possível

Raquel lembra de detalhes que não aparecem nos registros oficiais, mas que dizem tudo sobre aquele tempo: “A gente tinha um galo, amarrado pelo pé, perto do barraco. Não era por maldade. Era pra não perder. Era a única segurança que tinha.”

O galo simbolizava mais que um animal. Representava sobrevivência, controle sobre o pouco que se tinha. Assim como a vaca de leite, o porco, as galinhas — tudo era contado, vigiado, protegido. Nada podia se perder, porque não havia sobra, naquele tempo, riqueza não era dinheiro, “hoje nossa riqueza é ter o que comer em casa e não dever muito.”

Miguel e Raquel ficaram cerca de um ano acampados até receberem definitivamente o lote. No início, precisaram morar em um barraco de lona na beira do rio, porque no lote ainda não havia água. Miguel fazia diárias em fazendas vizinhas. Raquel ficava em casa, cuidando dos filhos e da pequena criação. “Não tinha salário. Era muito difícil.”

Com o tempo, vieram pequenos financiamentos, a produção começou e a terra foi sendo aberta – “Era tudo mato. A gente carregava os marcos nas costas.” As pernas feriam. O corpo cansava. Mas o sonho seguia firme.

Com a criação do município, tudo começou a mudar, chegaram: o posto de saúde, as escolas, o mercado, o ônibus, a cidade. “Mudou 100%.”

Hoje, Miguel e Raquel dizem que não são ricos. Mas vivem com dignidade. “Ter o que comer em casa e não ter dívida grande já é riqueza.”

Raquel lembra da dor de ver um filho doente e não poder levá-lo ao médico.,“foi muito sofrido. Não desejo pra ninguém.”

Quando perguntados se fariam tudo de novo, a resposta vem sem hesitação: sim. Apesar da dor, da fome e do medo, valeu a pena, porque hoje eles têm algo que ninguém mais pode tirar: um chão, uma memória e um lugar para chamar de lar. “Valeu a pena.”

A história de Miguel e Raquel é a história dos brasiguaios, dos assentados, de Novo Horizonte do Sul. Uma história feita de passos longos, mãos calejadas, barracos de lona, um galo preso pelo pé  e uma terra que, finalmente, virou lar.

KF News – Jornalismo que preserva a memória, valoriza pessoas e registra a história viva do povo de Novo Horizonte do Sul.

Colaboradores:

– Camilla Sophia Lopes de Paula

– Paulo Vitor Ferreira Gonçalves

– Karina Lopes de Paula

– Antônio Flavio Jose de Paula

Fotos: Arquivo da Familia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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